terça-feira, 14 de agosto de 2012

Nome aos Bois



Tudo começou quando um desconhecido me chamou no bate papo do Facebook parabenizando-me pelos textos que publico neste blogue. Foram vários elogios, que me deixaram muito feliz, claro, mas não é deles que vou me gabar. Houve um certo momento durante a conversa virtual em que o meu fã distante fez-me uma pergunta que me chocou sobremaneira:

— Como é foda ser anarquista no mundo de hoje, não é mesmo?

Meu choque se explica: eu nunca me definiria como anarquista, nem que me pusessem uma faca no pescoço. Morreria negando. Aliás, já foram muitas as oportunidades em que me dissociei fortemente do anarquismo, a que já chamei de «pensamento porra louca», «sonho irrealizável», etc. Muitas as vezes em que sugeri que anarquistas deveriam mudar-se para a Somália (de fato e de direito o único lugar do mundo onde impera a anarquia).

Mas a verdade que eu tive que admitir é que eu mesmo sou um anarquista. Como assim?

A pergunta me chocou, mas não me surpreende mais que ela tenha sido feita. De fato, uma rápida análise do pensamento por mim expresso nesse blogue revela que eu estou dissociado demais do pensamento esquerdista majoritário, e mesmo da social democracia. Como não existe a mais remota compatibilidade possível com a direita, a solução é rotular-me como anarquista, ainda na esquerda, mas não na esquerda herdeira de Marx por intermédio de Kropotkin, Lênin e Stálin.

Dizer-se anarquista é muito difícil porque vão atirar contra mim exatamente os mesmos argumentos que eu atiro nos outros anarquistas. E com razão. Meu erro ao brandir tais argumentos, erro derivado de minha incompreensão do meu próprio anarquismo, era o de imaginar que o anarquismo seja alguma coisa prática. Isso non ecziste.

O anarquismo é a suprema utopia. Algumas utopias parecem realizáveis em um prazo curto, médio ou longo. Outras parecem simplesmente irrealizáveis, mesmo tendo todo o resto da vida do universo para tentarmos. Entre as mais abstratas delas, o ideal da República platônica e o anarquismo. Nenhum das duas ideias é para ser levada a sério. A primeira porque condiciona o bom funcionamento do governo à virtude pessoal dos governantes e a segunda porque condiciona a paz social à boa índole de todo a sociedade. Msmo sendo anarquista eu concordo com Thomas Hobbes e prevejo que a ausência do Estado provocaria algo muito diferente de uma paz paradisíaca. A Somália serve-nos de exemplo: bellum omnia omnes.

Isso explica minha relutância em reconhecer traços de ateísmo no que penso e escrevo, mas não invalida a minha necessidade de pensar e escrever as coisas desse jeito. Penso e escrevo como um anarquista porque somente alguém desconectado de fidelidades ideológicas pode reconhecer e criticar falhas que cada ideologia tenha. Ser anarquista não é somente propor a destruição do Estado, é não aceitar ser tangido por ideias preconcebidas, por projetos alheios. Ou tentar resistir.

Ser anarquista no mundo de hoje é ver que por todos os lados projetos ideológicos estão calando vozes dissidentes, impondo verdades, estruturando formas de dominação. É denunciar pelo menos alguns destes mecanismos. Assim, o anarquista acaba servindo à democracia, mesmo que preferisse uma sociedade sem Estado. Se o Estado é inevitável, que seja democrático. Esse foi o pragmatismo que levou os anarquistas a formarem um governo de coalizão na Espanha republicana, e a fórmula através da qual meu livre pensamento não se leva a rejeitar minha pátria e uma parte das ideologias a ela relacionadas. Se é para servir a alguém, que seja ao meu povo, e não a um povo estrangeiro. Se é para viver sob um domínio, que seja o da lei. Se é para haver uma hierarquia, que seja laica. Se é inevitável um governo, que seja democrático. Se é para haver um Estado, que promova o bem comum. E o bem comum tem de ser bom para todos, ou para a maioria possível.

Então não me mandem para a Somália. Mas tampouco me mandem para onde o Estado é forte demais e o povo não consegue ser ouvido.