sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O Neonazismo e os Novos Movimentos Religiosos

Mircea Eliade (autor da História das Crenças e das Ideias Religiosas), no prefácio de seu Dicionário de Religiões, afirma que a definição de «religião» é algo tão complicado que ele prefere furtar-se à obrigação de fazê-lo, e sai pela tangente afirmando que «religião é aquilo que os religiosos chamam de religião». Se nem a maior autoridade no assunto ousou cravar uma definição rigorosa do termo, longe de mim fazê-lo, eu que nunca escrevi nada que se compare às suas obras. Deixo a tarefa, digna de Sísifo, aos meus leitores, caso eles ousem embrenhar-se neste debate esdrúxulo.

Ocorre que, mesmo sendo tão difícil precisar o que religião é, segue interessante comparar movimentos e instituições que reivindicam para si um caráter religioso com outros movimentos e instituições que não o fazem ou mesmo o negam peremptoriamente. Tais comparações fazem saltar à vista a imprecisão das fronteiras ente religião, mito, ideologia, conto de fadas ou mera crendice. O discernimento só é possível quando analisamos os exemplos extremos de cada categoria. Mas não é certo pensar que somente os exemplos extremos são verdadeiros.

Neste artigo pretendo fazer uma comparação entre o (Neo)nazismo e os Novos Movimentos Religiosos, para demonstrar como o modus operandi de uma ideologia decididamente secular pode ser semelhante, ou mesmo análogo, ao de uma religião. Mas para chegar a isto é necessário, primeiro, conceituar o que se deve entender por «Novo Movimento Religioso».

Os estudiosos das religiões enquanto fenômenos sociológicos cunharam o termo nos anos 1990 para fugirem do caráter pejorativo que havia adquirido o que estava anteriormente em uso: seita (em inglês, cult). Fizeram-no tomando por base uma terminologia japonesa para as seitas religiosas surgidas naquele país no pós-guerra: shinshūkyō (新宗教), que também significa «novas religiões». Embora seja um eufemismo, criado para não ofender os poderosos líderes destas seitas, é um termo mais exato e útil, porque enfatiza um ponto com o qual todo ateu concorda: a única diferença entre uma religião e uma seita é a antiguidade (que, nos círculos religiosos, confere respeitabilidade).

Uma característica importante dos Novos Movimentos Religiosos, porém, é que, embora sejam da mesma natureza das religiões milenares, eles acrescentam elementos inesperados no caldo de cultura em que seus seguidores se banham. Um destes elementos é a quebra da tradição: os líderes de NMR são muito mais personalistas do que os profetas e pastores do passado, frequentemente escrevendo seus próprios textos sagrados e reivindicando apenas uma vaga associação com instituições passadas.

Existem inquietantes semelhanças entre ideologias políticas modernas, como o (neo)nazismo, a ufologia e o comunismo, com as religiões, antigas ou novas. As principais analogias que se pode fazer são:

CREDULIDADE. Toda religião se baseia na aceitação de teses que as pessoas normalmente não levariam a sério. A crença nestes absurdos funciona como uma espécie de chave para «abrir a cabeça» do iniciado para todas as demais coisas que terá de aceitar. O neonazismo se baseia na crença (cientificamente infundada) de que os seres humanos não são pertencentes à mesma população racial, que alguns são superiores aos outros, etc.

INSUFLAÇÃO DA AUTO ESTIMA DO ADEPTO. O item anterior nos leva ao ponto em que um indivíduo pode buscar entrar em um círculo destes para sentir-se especial. Como diz o verso de uma música do Bob Dylan, just remember you are white. Você pode ser um drogado e ladrão, mas é branco e, então, pode se pentear, fazer a barba e apresentar-se como um ser digno. Uma pessoa que tenha o perfil certo pode aderir para poder se auto afirmar como alguém especial, ainda que apenas por causa da acidental cor de sua pele. 

MISTICISMO. Há várias formas de misticismo. Normalmente associamos esta palavra a crendices em fantasmas, adivinhações ou coisas semelhantes, mas o misticismo não está obrigatoriamente voltado ao sobrenatural. Bons exemplos são o Budismo theravada, que contempla a sobrevivência da alma como um efeito indesejado, o judaísmo, que possui algumas correntes que não creem na existência de uma alma, ou o taoísmo, que preconiza a sobrevivência física do corpo como a maior recompensa. As ideologias políticas totalitárias acrescentam, porém, um tipo adicional de misticismo: um que se baseia na redenção da comunidade pelo sacrifício do indivíduo. O herói socialista ou o soldado nazista não esperam uma sobrevivência póstuma (a menos que isso faça parte de uma crença pessoal anterior), mas contribuir para o triunfo de seu ideal, o sucesso da Revolução, que produzirá a sociedade perfeita, ou a vitória ariana, que conduzirá à purificação do mundo.

EVOCAÇÃO DE GLÓRIAS PASSADAS. A palavra religião é cognata de «religar», portanto é natural que todo movimento de caráter religioso tenha um tipo de referência a um tempo mítico pretérito, ideal de beleza, pureza ou virtude. A «queda do homem», no entanto, separou a humanidade de sua perfeição original, que agora só pode ser buscada através de cerimônias, enquanto não se atingir a redenção futura, que restabelecerá o elo partido nos primórdios. Tal fica evidente no caso do nazismo quando seus ideólogos procuram ligar o movimento ao Sacro Império Romano Germânico (I Reich) e ao Império Alemão (II Reich), ou até mesmo aos povos nórdicos não romanizados, como os anglo-saxões, os jutos, os suecos, os teutões, os normandos etc. Este elemento está ausente da ideologia comunista, exceto pela adoção do termo «comunismo», que se refere ao estágio civilizatório anterior à civilização agrícola.

MITO DO TRAPACEIRO. O responsável pelo rompimento da harmonia original do mundo é um trapaceiro (trickster), que se opõe à vontade dos deuses e produz a separação das esferas humana e divina. A natureza desta oposição é quase sempre ambígua: o trapaceiro de fato destruiu a harmonia entre a humanidade e a divindade, mas o seu ato foi o responsável pela criação da civilização. Isto pode ser visto no mito da serpente no paraíso, graças a quem Jeová ensinou a agricultura ao ser humano, fazendo com que ele deixasse de ser um consumidor passivo dos frutos da estação, e também em Prometeu, que roubou o fogo dos deuses e deu-o aos homens, permitindo que fizessem para si ferramentas e armas com que tentaram desafiar as divindades. No caso do nazismo, a quebra desta harmonia original se processou por intermédio da religião cristã, uma crendice judaica. Após este momento os alemães «puros» das sagas nórdicas se tornam cordeirinhos de Deus. Esta desgraça é atenuada pela «germanização» do cristianismo, produto da Reforma protestante, mas os judeus, agora vivendo no seio da sociedade, por toda parte, se dedicam a impedir que os valores primordiais (e harmônicos) sejam resgatados. Desta forma, o judeu é simultaneamente a serpente do paraíso e o diabo.

VALORIZAÇÃO DO TEMPO MÍTICO. O tempo do mito, que é cíclico e extra terreno, representa o ideal a se perseguir. Ao diagnosticar a «decadência» da sociedade, o neonazista simultaneamente a compara com o tempo mítico que idealiza. Uma época em que ainda não havia judeus na Alemanha, e nem vinho.

SECTARISMO. A demonização dos não aderentes, a separação entre «nós» e «eles» é uma característica dos movimentos religiosos, mesmo daqueles que não se apresentam como seitas. Mesmo que uma religião não odeie explicitamente os não adeptos, ela sempre os terá em conta de simplórios, ignorantes, perdidos, dignos de dó etc. Mas nos casos mais claros, encontrados no paganismo, os adeptos de outra religião (necessariamente membros de outra sociedade) são de fato separados. O neófito nazista é convencido de que passou a fazer parte de uma casta diferente da sociedade, que tem um trabalho importante a fazer e que, devido à grande oposição que o resto do mundo tem contra a ideologia, é necessário manter-se desconfiado de todos. Isto não é diferente de religiões que exigem que seus fieis se afastem até da família e dos amigos, se estes não aceitarem acompanhá-lo em sua busca.

RITUAIS E OSTENTAÇÃO DE SÍMBOLOS. A obsessão com os uniformes e insígnias é uma característica de todos os movimentos totalitários. A tal ponto que tais uniformes e insígnias adquirem, por si, um caráter simbólico. Coloridos estandartes, bandeiras enormes, medalhas, monumentos. Esta necessidade de tangibilizar o sentimento dos adeptos.

ADOÇÃO DE UM SÍMBOLO IDENTIFICADOR. Toda religião precisa de um símbolo que a identifique, não apenas entre os adeptos, mas também entre os demais. O símbolo pode ser um resumo de determinada teologia, como o ying-yang do taoísmo, ser apenas uma insígnia (supostamente) real, caso da Magen David judaica, ou ser apenas um logotipo aparentemente aleatório (ou de origem obscura), como o crescente islâmico ou a suástica budista. Tanto o nazismo como o comunismo procuraram associar-se a símbolos gráficos simples, fáceis de reproduzir e fáceis de reconhecer. Tanto assim que estes símbolos mudaram no tempo, à medida em que as deficiências originais foram percebidas. O símbolo do comunismo fora uma mera bandeira vermelha, depois uma estrela vermelha, mas a foice-e-martelo ofereceu uma versão mais identificável. Mesmo o símbolo não sendo original ele pode ser tão forte que suplanta os significados que anteriormente tivesse. Hoje em dia raramente alguém associa a cruz a outra coisa que não o cristianismo, e a suástica está indelevelmente marcada pelo nazismo.

ARREGIMENTAÇÃO DA SOCIEDADE. Há duas formas de se organizar o povo verticalmente: através da religiosidade e através do militarismo. Ambas as maneiras estão de tal forma relacionadas que a remoção das diferentes nomenclaturas torna difícil diferenciar uma da outra. Ambas as instituições são verticais, exigem obediência, oferecem uniforme e procuram dar a cada um o seu lugar. O civil, em relação ao militar, e o leigo, em relação ao clérigo. Cada um deles é visto sob um diferente prisma de inferioridade.

PROFECIA EX POST FACTO. Para legitimar-se no presente, os movimentos religiosos procuram ver em personalidades do passado algum tipo de presciência do que dizem representar. Tal como o cristianismo reivindicou a profecia judaica para divinizar o Cristo, os nazistas citaram Lutero e Nietzsche.

ASCETISMO. O sacrifício em prol da comunidade só pode ser feito por alguém que se sacrifica em prol de si mesmo. O ascetismo tem por objetivo reduzir a vontade de viver, a ânsia de independência. O asceta está pronto para a morte, o kamikaze japonês não tinha laços mais com «este mundo» e os soldados perfeitos dos regimes totalitários são treinados para esquecer, se um dia conheceram, os sentimentos burgueses e decadentes do amor, do egoísmo, da independência, da luxúria, etc. O ascetismo se manifesta na valorização de uma figura humana submetida aos ideais do Partido ou da Igreja. O esporte, que produz um corpo «heróico» também pode ser uma forma de ascetismo. Por fim, a romantização do herói ferido na guerra (o que o próprio Hitler fez questão de dizer que era) enfatiza o valor da dor e do sacrifício do indivíduo.

CULTOS PÚBLICOS. O maior orgulho de qualquer religião é afirmar-se pela popularidade. Somente quando é seguida por um número expressivo de pessoas ela pode deixar de ser vista como algo «esquisito» e passa a interagir com o resto da sociedade em um plano de normalidade aparente. Grandes cultos também têm a função de intimidar quem neles não está: «veja como somos muitos, e você está só.» Isto explica tanto as mega igrejas das seitas neocristãs quanto os imensos comícios nazistas e as paradas militares de primeiro de maio feitas pelos comunistas.

VALORIZAÇÃO DA RETÓRICA EM VEZ DA RAZÃO. O orador totalitário, ou o religioso, está ocupado em convencer pela empatia, pelo sentimento, pela identificação. Nunca pela razão. Em vez de argumentar, ele procura despertar emoções. Produzir uma catarse, exibir-se em transe, fazer todos crerem que algo divino se manifesta por meio dele. Isto pode fazê-lo girar como um pião, balbuciar sílabas desconexas, ou discursar gesticulando e fazendo caras e bocas.

MÍSTICA DO LIVRO. Marshall McLuhan definiu a invenção da escrita como o momento em que a humanidade começou a se separar da esfera da oralidade. Ali começou a destribalização do ser humano. O poder do livro é tamanho que as sociedades letradas se impuseram, ao longo da história, sempre com facilidade. Na mitologia grega, o rei Cadmo planta os dentes de um dragão e deles nascem soldados armados para a guerra. Cadmo fora o inventor do alfabeto. O alfabeto é algo tão perigoso que ao ser plantado na terra ele dá origem à violência institucionalizada através do exército. Os povos antigos começaram a perceber esse poder, mas foram os povos menos letrados que o entenderam melhor, contemplando-o de fora. Judeus e árabes viram no livro algo divino em si, por isso criaram o conceito de «livro sagrado». Algo análogo havia acontecido no Oriente, com as Sutras budistas e os Vedas hindus, mas não tão profundamente quanto no Ocidente. A importância do livro é auto-evidente, tanto no neonazismo (Mein Kampf, que chega até a ter o título sempre citado na língua sagrada original) quanto no comunismo (com o Manifesto Comunista, de Marx, ou, na Revolução Cultural Chinesa, o Livro Vermelho, de Mao Tse Tung).

SANTIFICAÇÃO DO FUNDADOR. As biografias dos fundadores entram em um processo póstumo de sanitização e santificação, sendo gradualmente distorcidads até o ponto em que se tornam mitos. Diz-se de Buda que as solas de seus pés plantavam flores de lótus onde pisasse. Os santos fundadores do comunismo (todos, aliás, barbudos como os ícones dos santos ortodoxos) e o grande santo fundador do nazismo (Hitler) passaram a ser representados em poses heróicas, com olhares perdidos num ponto além do presente, expressões compungidas e preocupadas (Hitler) ou desafiantes e confiantes (Stálin e Lênin) ou ainda bonachonas e compreensivas (Marx).

CISMAS E EXPURGOS. Em algum momento a mensagem original é «deturpada», surgem «heresias», as pessoas se matam para ver quem tem razão. Um grupo se torna hegemônico e suprime os outros. Stálin suprimiu o internacionalismo proletário de Trótski para poder consolidar o poder no plano interno. Hitler suprimiu a SA, com sua ideologia perigosamente anticristã e as suspeitas de homossexualidade rampante entre seus membros.

DUALISMO. A maioria das religiões precisa de um Satanás ou um ser equivalente. Como já vimos, o judeu representa tal papel no nazismo, e, portanto, tudo quanto seja associado ao judaísmo, ou possa ser, se torna satanizado também. Isto leva à condenação arbitrária de quase todo pensamento divergente. No comunismo, os valores «burgueses» são o satanás sem rosto, análogo ao judeu, igualmente amorfo. Mas em ambos os casos a tangibilização é obtida através de alegorias. O judeu e o «porco capitalista» são caricaturados para melhor serem odiados, e tais caricaturas se tornam uma ferramenta «educativa».

ASPIRAÇÃO TEOCRÁTICA. A religião busca subjugar o Estado (doutrina da supremacia papal, por exemplo) diretamente, como no caso do catolicismo medieval, ou indiretamente, como no caso dos reis budistas do sudeste asiático. Na prática o Estado se torna um instrumento da religião ou ideologia. Isto fica evidente nas «trocas de guarda» ideológicas, que envolvem a substituição dos símbolos ostensivos da Pátria. Quando os comunistas triunfaram na URSS, criaram para si a bandeira vermelha com a foice e o martelo, como depois fizeram os nazistas, que substituíram a bandeira tricolor alemã pelo pavilhão vermelho da suástica. Mussolini, porém, se contentou em inscrever o fascio no centro da bandeira italiana.

MESSIANISMO. Não são todas as religiões que propagam a ideia de um Juízo Final redentor, após o qual a harmonia original do mundo será restabelecida. Mas está isso bem claro nas doutrinas das principais religiões com as quais os fundadores do nazismo tiveram contato. O nazismo se propõe a salvar o povo ariano da degradação a que está exposto, unificar suas nações, fazê-lo triunfar sobre os inferiores, etc.

SÍMBOLOS ALUSIVOS À MORTE. Bastante proeminentes no cristianismo, estes símbolos são também evidentes no nazismo (mas não tanto no comunismo). Caveira, cruz-de-ferro, cor preta dos uniformes, cor vermelha da bandeira. Se para o comunista a bandeira vermelha representa a guerra (instrumento que destrói a ordem burguesa), para o nazista representa o sacrifício de sangue em prol da pátria.

MARTÍRIO DO FUNDADOR. A mística religiosa não se completa sem que os fundadores sejam martirizados em nome de seus ideais. Mortes heróicas, nas mãos covardes do inimigo, ou o suicídio honrado para não ser pego vivo e feito de exemplo. Jesus morreu na cruz, Hitler matou-se para não ser pego, Mussolini foi enforcado de cabeça para baixo (e supostamente castrado), Lênin teria sido envenenado por agentes a serviço da burguesia (ou de Stálin, mas isso é outra polêmica).

CONSPIRAÇÃO UNIVERSAL CONTRA O FUNDADOR. O crente perfeito (true believer) nunca aceitará nenhuma crítica contra o líder. As críticas sempre serão entendidas como uma tentativa de descrédito da religião/ideologia. O pastor não rouba meu dízimo para comprar mansões no Caribe, meu führer não é um louco obcecado pelo poder, o Grande Timoneiro Mao não é um incompetente que causou uma imensa fome e nem um tarado que estuprava uma adolescente virgem por semana. As acusações são todas descartadas sem exame apenas porque foram feitas pelo inimigo, isso quando sequer são percebidas (dissonância cognitiva, a capacidade de ignorar o que não queremos ver).

MITIFICAÇÃO DO PROCESSO DE FUNDAÇÃO. Se os líderes são progressivamente santificados, da mesma forma é «milagrificado» o processo (doloroso, claro) que levou ao surgimento da doutrina. Dois bons exemplos são as vitórias bolcheviques na Revolução Russa e o «milagre alemão» sob Hitler. Ambos são fenômenos perfeitamente explicáveis no contexto. Os russos brancos eram poucos, eram divididos em facções e o apoio estrangeiro era insuficiente. Além disso os comunistas tinham apoio popular. Enquanto isso, Hitler direcionou os empregos para os homens (deixando as mulheres em casa) e começou a perseguir os judeus e algumas minorias, deixando seus empregos para os arianos perfeitos. Talvez dentro de alguns séculos as pessoas digam que Hitler também dividiu pães e peixes ou que Stálin parou o sol no céu para o Exército Vermelho terminar a batalha de Stalingrado. O processo de mitificação se completa quando a história é canonizada, tida como verdade, e nenhuma crítica ou questionamento passa a ser aceitável.

UNIVERSALIZAÇÃO. Tal como Jesus não veio senão pregar às ovelhas perdidas da casa de Israel, os nazistas não eram voltados senão aos próprios alemães (esse ponto não procede na comparação com o comunismo). No entanto, quando o destinatário original da mensagem se mostra indigno dela, esta passa a ser difundida a todo o mundo, a quem quiser ouvir. A explicação é clara: o povo original rejeitou a salvação que ela representava, o que a disponibilizou para outros povos. Isto explica porque é possível haver neonazistas nos países que mais sofreram com a opressão nazista (Grécia, por exemplo). Parte deste processo é a culpabilização do destinatário original da mensagem por sua falha. Tal como os judeus foram acusados, durante séculos, de serem responsáveis pela morte de Jesus, os alemães são vistos por alguns neonazistas como uns «frouxos» que puseram a perder a mensagem de Hitler em sua forma original.

Considerados os elementos acima, torna-se possível ver que existem muitas analogias entre o (neo)nazismo e as religiões. Pode ser que ainda precisemos de alguma boa vontade para chamar o nazismo (ou o comunismo) de religião, mas até quando? Em geral as religiões começam como meros grupos de seguidores de alguém que a sociedade enxerga como um louco, depois se tornam movimentos marginais, que muitas vezes buscam distanciar-se das religiões estabelecidas, mas finalmente se estabelecem. O que torna o neonazismo diferente não é uma característica intrínseca, mas a pouca antiguidade e a recusa em reconhecer que ele possa ser seguido como uma religião. No dia em que alguém pretender isso, será fácil de ver que, à esquerda e à direita, para o bem ou para o mal, ideologias são todas instrumentos de controle de massas.

Você está preparado para aceitar uma Igreja Neonazista em sua rua?