terça-feira, 7 de agosto de 2012

Quando uma Organização Ateísta se Aproxima de uma Religião

Está lá em qualquer manual introdutório de lógica básica de argumentação que os argumentos que não seguem regras racionais são inválidos. Mesmo assim, as chamadas «falácias» (minimizaremos o uso do termo daqui para a frente) seguem sendo mais populares do que o feijão, exceto que todo mundo sabe como se chama o feijão, mas ninguém quase identifica, por nome e sobrenome, os erros de argumentação que se pode cometer. Estes erros, porém, estão cuidadosamente catalogados, cada um em seu escaninho, e há alguns guias na internet que podem servir de base a quem queira conhecê-los.

Um dos usos mais comuns das tais falácias é na tentativa de desqualificar o ateísmo como sendo uma crença ou, de uma forma menos sofisticada, como uma religião. É preciso ter muito cuidado com esse tipo de argumentação porque se trata de uma «faca de dois gumes» e qualquer um deles parece igualmente válido. Mas na prática, nenhum é cem por cento garantido.


O primeiro gume é a comparação entre as atitudes de organizações ateístas e de seus líderes em relação ao que dizem e fazem os líderes e organizações comumente tidos como religiosos.  Esta é uma comparação válida, porque é comum que as pessoas creiam estar combatendo eficazmente por uma causa quando estão, de fato atrapalhando-a. Desta forma, não há problema algum em apontar semelhanças entre ateus e suas organizações com qualquer instituição religiosa. Desde que a comparação seja demonstrada.

Mas disso não se segue (non sequitur) que o ateísmo seja uma religião. Este é o segundo e traiçoeiro gume que corta a mão de muita gente que não sabe brincar, mas desce para o play.

O fato de uma pessoa estar equivocada quanto à definição de seu posicionamento quanto a um determinado conceito nada tem a ver com a validade da definição em si. Pondo isto de uma forma mais fácil de visualizar, o fato de um louco se achar uma cenoura não significa que ele seja uma cenoura. Esta é apenas a sua percepção distorcida de sua identidade.

As semelhanças entre os dizeres e atitudes de algumas pessoas ligadas ao «movimento ateu» e os dizeres e atitudes de outras pessoas ligadas a religiões apenas demonstram uma dificuldade para desvencilharem-se completamente de modelos mentais muito arraigados culturalmente.

Outro exemplo fácil: só porque um líder esquerdista se tornou autoritário, isto não quer dizer que a esquerda seja autoritária.

Aqui temos outra faca de dois gumes. Alguns dirão que minha afirmação anterior padece de argumentação improvisada (argumentum ad hoc), também conhecido como a falácia do verdadeiro escocês. Que pode ser demonstrada assim: Todo X = Y, Este X não é Y, então este X não é X. A acusação pode ser facilmente desmontada se lembrarmos que a acusação padece da falácia da composição (generalização): como se pode afirmar que todo X = Y?

Então, o fato de um líder ter se desviado da doutrina não invalida a doutrina. O mesmo se aplica ao ateísmo. Dizermos que determinado líder ou determinada organização assumiu um comportamento análogo ao religioso, ou mesmo, simplesmente, dizer que «virou religião», não significa que o ateísmo em si seja religião.

Estas distinções precisam ser feitas, sempre e com muito cuidado, quando criticarmos os desvios cometidos por entidades que desaprovamos. Para que nossas palavras não acabem na boca de líderes religiosos, sendo usadas para provar que o ateísmo se dividiu em «seitas» como qualquer religião.