domingo, 19 de agosto de 2012

Se a Propaganda Substitui a Notícia

Tomei conhecimento através do Facebook de uma matéria publicada neste domingo na Folha de São Paulo que me deixou profundamente revoltado. Trata-se da história em quadrinhos sobre o mensalão. Antes que meus leitores reaças me acusem (se ainda estão lendo) de estar apenas reagindo ao ataque às minhas crenças, esclareço que a revolta não é causada pela tese apre­sentada no texto, pelas acusações a certos políticos ou mesmo pela ideologia subjacente à iniciativa. Posso perfeita­mente enten­der e aceitar que existam pessoas que pensam diferente de mim, posso aceitar (mas não entender) que exista quem espose uma ide­ologia reacionária de direita. E posso perfeitamente tolerar que uma coisa e outra sejam difundidas pela impresa. O motivo de minha profunda revolta é muito outro.

Referida história em quadrinhos é um desrespeito ao leitor da Folha da São Paulo, mesmo àquele que é reacionário, odeia Lula e sonha em organizar uma Marcha da Família com Deus Pela Liberdade e iniciar outra Redentora. Trata-se de um tratamento condescendente e infantilizado do leitor, que é tratado como um débil mental pelo simples fato de um tema tão complexo ser tra­tado por uma história em quadrinhos, com as características desta, no contexto em que o foi. Lamento se você gostou e aplau­diu, você faz parte do público que a Folha procurou atingir, e em você ela acerto. Sinta-se «especial».

O caso é que a Folha de São Paulo se prestou a fazer o chamado «jornalismo marrom», a busca da audiência (ou da vendagem, no caso de um jornal) através da divulgação exagerada de notícias sem compromisso com a autenticidade. Embora meus leitores reaças não admitam isso, os mais esclarecidos perfeitamente entenderão a associação do mesmo episódio com a chamada «imprensa golpista», que é o uso da mídia como um instrumento de pressão (e enventualmente de conspiração) contra o governo. Temos jornalismo marrom quando se emprega o recurso sensacionalista da história em quadrinhos para apresentar a notícia (foi justamente o emprego de histórias em quadrinhos coloridas que motivou o primeiro rotulamento de um jornal como sensacionalista, nos Estados Unidos, ainda no século XIX), quando um tema é apresentado de forma desproporcional, quando uma versão (no caso a de Roberto Jefferson) é assumida como verdade, sem ouvir o contraditório. Temos imprensa golpista quando a desproporcionalidade da representação atinge apenas um lado do espectro político, quando busca influenciar o comportamento das instituições.

O caso é grave, mas passará batido porque ninguém que tenha coragem de processar a Folha de São Paulo eficientemente tem dinheiro para isso, e a ausência de uma Lei de Imprensa torna impossível responsabilizar a mídia pelas irresponsabilidades que comete.

Uma rasa análise dos quadrinhos apresentados (para minha grande decepção assinados pelo cartunista Angeli, embora com um traço tosco que sugere alguma coisa) mostra o recurso a vários tipos de técnicas subliminares de deturpação da mensagem. Mas antes de falar do emprego de símbolos e arquétipos em lugar de argumentos, antes de falar de propaganda em vez de notícia, falemos do quadrinho inicial.

Logo no início a historinha apresenta o Brasil inteiro como uma vala de esgoto onde chafurdam personagens que se dividem entre a esperança («às vezes do lodo nasce uma flor de lótus») ao cinismo («mas em outras dali só sai mais lama mesmo»). Trata-se de uma generalização ofensiva, que deveria ofender a cada cidadão brasileiro de bem, a cada um que não seja um porco enfiando o focinho na lama em que ele mesmo defeca. Como não sou um destes porcos eu me senti ofendido. Mas o Facebook está cheio de gente que se sentiu homenageada. Não discutirei este mérito. Preferia que as pessoas votassem com suas carteiras. Eu votei com a minha há bastante tempo: não compro a Folha de São Paulo nem como embrulho de peixe na feira: peço para embrulharem no Meia Hora.


A primeira parte da história em quadrinhos se baseia exclusivamente na versão de Roberto Jefferson, que, diga-se de passagem, foi cassado porque, não conseguindo provar nada contra mais ninguém, acabou réu confesso de abuso do cargo de deputado (a posterior cassação de José Dirceu e a prosseguimento das investigações são um outro momento e obedecem a dinâmica diferente). Normalmente se deve ter certo ceticismo quanto à versão de um réu confesso, especialmente uma versão na qual tenta inocentar-se ou diminuir sua culpa. Não existem muitos culpados nas celas das prisões. Talvez haja mais «inocentes» atrás das grades do que fora delas. Portanto, ao basear-se exclusivamente na versão de Jefferson a Folha definitivamente não pratica bom jornalismo. Mesmo porque (e isto é espantoso, pois poderia servir até mesmo aos objetivos inconfessos do jornal) o depoimento do deputado fluminense foi apenas o estopim de uma longa investigação que certamente aperfeiçoou o conhecimento do caso. Limitar-se ao depoimento inicial é uma escolha incompreensível.

O segundo problema é uma contradição lógica inexplicada: se a Folha vê o Brasil, ou pelo menos o Congresso, como aquela pocilga imunda, como se fia na versão apresenta por um dos «porcos» e referendada por outros? Por que a versão de pessoas tão desprezíveis a ponto de serem postas na lama merece todo o crédito?

O terceiro problema é a contradição entre o texto e as imagens, e aqui ser revela deliberada desonestidade por parte de quem concebeu esta HQ (se me processarem, pago a pena mas não retiro a acusação). Desonestidade porque o texto é contido, comedido, faz questão de sempre dizer que «Jefferson disse», jogando toda a responsabilidade no colo do ex deputado. Se alguém meter um processo na Folha ela sempre poderá dizer que apenas reproduziu a versão dele. Mas as imagens não tem esse comedimento e nem essa continência. As imagens são claramente partidárias, persuasivas. Quem passar pela história dando pouca atenção ao texto ficará com uma impressão totalmente diversa da que teria alguém que lesse o texto isoladamente. As imagens têm força, elas atingem um nível subsconsciente de pensamento. A Folha fez esta HQ para influenciar semiletrados. Eles adoraram, tal como as crianças gostam dos livros ilustrados e com letras grandes. É preciso ganhar os corações dos semiletrados.

E o que estas imagens falam não é bonito. Empregam todo tipo de artimanha de propaganda para argumentar não verbalmente e levar o leitor a ter um sentimento difuso de rejeição ao «mensalão», mesmo antes de se chegar ao ponto em que a própria versão de Jefferson é posta para escanteio e parte-se para afirmações sequer referenciadas (mas histórias em quadrinhos, não custa lembrar, não têm referências bibliográficas). Cores escuras de plano de fundo servem para sugerir que as negociações foram feitas «na calada da noite», «nos porões», etc. O tipo de imagem conspiracionista que nos remete até mesmo aos Protocolos.

A manipulação inclui até mesmo mostrar o publicitário Duda Mendonça com um galo na mão, em um quadrinho sem legenda, antes de apresentá-lo como parte da história. Trata-se de uma referência ao obscuro episódio da rinha de galos em que Duda se envolveu (obscuro porque é um absurdo que algo proibido seja tão tolerado nesse país). Antes de mostrar Duda fazendo qualquer outra coisa, é preciso vinculá-lo a um caso vexaminoso e que tem certo apelo entre boa parte da população, que tem sentimentos ecológicos fofuchos embora navegue pelas ruas em carros beberrões de gasolina, entre outras coisas.

Particularmente difícil de engolir é a caricatura de Lula, que evoca os piores momentos desta arte, quando foi usada a serviço da propaganda política de regimes execrados pela História (inclusive regimes de esquerda, para que meus leitores reaças que chegaram até aqui não me acusem de ser parcial). Dotada de bem pouca semelhança com o rosto real do presidente (e assim quebrando uma marca da caricatura política), a figura apresentada tem todas as características de um vilão de história em quadrinhos em regimes totalitários. Completa com a animalização (figura hirsuta, feições de roedor) e os olhos vidrados de inimigo obcecado do povo.
Semelhante até no terno preto e no nariz proeminente, Lula é o Judeu Errante que lidera o cabal demoníaco que se insurge, do fundo do mar de lama, contra o país em crise.

Acredito que ao longo dos próximos dias terei refletido melhor sobre  o caso e talvez escreva mais. Por enquanto estas são as minhas regurgitações... Sintam-se à vontade para apedrejar.