terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Aposta de Pascal Reduzida ao Absurdo na Internet

Se você deseja defender uma opinião sua, qualquer que seja, deverá, naturalmente, escolher para esse fim argumentos que convençam com sinceridade e transparência, e não insinuações pessoais, provocação de medo ou apelo à ignorância. Quanto mais sólidos os seus argumentos, porém, menor a sua popularidade: argumentos racionais fazem com que as pessoas burras se sintam burras mesmo. Como a Constante de Auden nos ensina que a soma total da inteligência simultaneamente presente na humanidade tem se mantido constante nos últimos séculos, a conclusão óbvia é que haverá sempre mais pessoas dispostas a aceitar ideias idiotas do que explicações racionais. Sem falar nas vantagens evolutivas de ser crédulo, que já foram mencionadas por um etólogo agnóstico britânico famoso.


Isso explica a força com que se propagam os chamados «memes», esses pedaços desconexos de informação anônima que vagam pelo mundo. Antigamente a gente chamava isso de fofoca, mexerico, boato, calúnia, etc. Mas como as pessoas progressivamente se cansaram de ser acusadas de propagar essas coisas chamadas por nomes tão desagradáveis, adotaram o termo mais chique. Ninguém se sente uma vizinha fofoqueira quando e nem se identifica com um caluniador inconsequente quando «replica um meme».

Gatos não precisam de explicação. Precisam das pílulas de ácido que você tinha escondido na gaveta.
Memes apelam a afetos superficiais. Gatos, por exemplo. Desde que deixamos de guardar nossa comida em grandes celeiros eles deixaram de ter para nós qualquer importância a não ser a afetiva. Gatos são fofuchos pronto, não precisa explicar nada.

Memes apelam aos nossos medos. E principalmente ao medo do outro. O medo do «lá fora», onde estão todos os monstros e perigos. Não há nenhum perigo na nossa casa, na nossa rua, no nosso país, no nosso partido, na nossa religião. O inferno são os outros.

O maior dos medos é o medo da morte. Para agudizá-lo existe o medo maior ainda, do inferno. Não basta deixar de existir, é possível passar a existir numa realidade de eterna tortura. Afinal, Deus nos ama.

Diante deste medo, o filósofo francês Pascal criou um raciocínio sobre que atitude deveria ter um ser racional diante do problema da existência de Deus.  A famosa «aposta de pascal», até hoje difundida como o argumento «matador» contra o ateísmo. Como toda bala de prata, ela só funciona se o monstro for um lobisomem.

A aposta de Pascal contempla quatro possibilidades:
  1. Deus existe e vivemos crendo nele: morremos e estamos salvos.
  2. Deus existe e vivemos não crendo nele: morremos e estamos perdidos.
  3. Deus não existe e vivemos crendo nele: nada acontece.
  4. Deus não existe e vivemos não crendo nele: nada acontece.
O argumento central da aposta é que somente podemos estar fodidos se Deus existir e nós não crermos nele. Portanto, crer em Deus é uma maneira de se garantir contra o pior cenário. É uma espécie de seguro da alma contra os riscos de inferno.

Supostamente esta geringonça de bronze era capaz de fazer adições.
É díficil crer que um filósofo tão respeitável quanto Pascal, um gênio precoce que inventou uma máquina calculadora aos 14 anos, ainda no século XVII, tenha concebido uma argumentação que hoje até uma criança de 14 anos que não sabe nem montar um carrinho de Lego é capaz de destruir. A aposta de Pascal padece de dois vícios. O primeiro é que ela não aborda a questão da existência de Deus em si, mas apenas as suas possíveis consequências. O apelo às consequências pode ser persuasivo, mas nada diz sobre a verdade. O segundo vício é que ela só lida com duas possibilidades: «existe» ou «não existe», sem considerar que Deus pode existir e ser diferente desta entidade concebida pelo cristianismo. A aposta, enfim, só funciona se você já acredita em Deus, e no Deus específico de que estamos falando.

Mas o apelo às consequências é eloquente para pessoas que pensam com medo, e limitar as possibilidades àquelas que a pessoa já conhece, sem exigir que ela aprenda nada novo, ajuda a angariar adeptos para qualquer ideia. Se o seu argumento depende de que os ouvintes busquem conhecimento para concluírem por si mesmos, então prepare-se para a resposta das paredes, porque todos querem apenas descobrir que «já sabiam» o que precisavam saber. Isso inclui Deus: se o argumento sobre Deus contempla apenas o Deus que a pessoa já conhece, então esse argumento será facilmente aceito.

Uma das maiores provas da falha bisonha da Aposta de Pascal é que ela é o mecanismo «racional» por trás dos boatos de internet. Sempre que você recebe uma mensagem propondo evitar que algo horrível aconteça, ou propondo ajudar algo bom a acontecer, você faz a mesma matemática de Pascal:
  1. Se for verdade, eu ajudei, eu fiz minha parte.
  2. Se for verdade e eu não ajudei, vou me sentir culpado um dia.
  3. Se for mentira, não me custou nada tentar ajudar.
  4. Se for mentira e eu não ajudei, não perdi nada encaminhando a mensagem para mais alguém.
Entre lidar com a culpa de não ter ajudado quando não custava nada e a sensação de ter salvado 0,01% do mundo sem gastar nenhum tostão, nós optamos pela segunda hipótese. Portanto, mesmo quando duvidamos da mensagem (como nos famosos centavos que o Facebook paga para quem compartilha fotos de garotinhos com câncer ou gatinhos agredidos), achamos legal a ideia de compartilhar aquilo, porque não custa nada, e de repente ajuda.

Se estes últimos três parágrafos não foram suficientes para você entender o tamanho da besteira que Pascal disse (apesar de ter inventado uma calculadora mecânica aos 14 anos, em pleno século XVII, o que é algo muito mais ultra-foda do que qualquer de nós fará em toda a vida), então não resta muito a dizer. Infelizmente nós temos a ideia de que pessoas geniais só dizem coisas geniais, e que mulheres bonitas não cagam. Por isso, toda vez que ouvimos falar da Aposta de Pascal, pensamos naquela calculadora (puta merda, como o cara fez isso naquela época em que se amarrava cachorro com linguiça?) e nos esquecemos de pesar os argumentos.

A coisa fica mais triste porque o que Pascal disse foi mais ou menos o que qualquer pessoa descuidada pensa. Então uma pessoa descuidada lê isso e se acha foda: «eu penso igual ao cara que inventou uma calculadora mecânica aos 14 anos, no século XVII». Como é que se tira esse besteira da cabeça de um cara que não tem mais nenhum motivo para se sentir especial?

Um claro exemplo da Aposta de Pascal recentemente no Facebook é o boato de que basta compartilhar um «aviso de privacidade» contendo uma obscura menção a um artigo obscuro de uma lei obscura daquele obscuro país chamado Estados Unidos da América e «magicamente» nem o Mark Zuckerberg e nem ninguém poderá se apropriar do que você escreve em seu mural.

O nome disso é «amuleto jurídico». O sujeito acha que só porque citou um artigo de lei já passou a estar amparado por ela. Quer um exemplo disso: ponha na cerca de sua propriedade um aviso «Propriedade Particular: Proibido Caçar, Pescar e Nadar». Funciona? Por que funcionaria com o Facebook? Ah, mas é uma lei americana. Leis americanas são melhores e funcionam melhor, não é mesmo. Desde que você vá aos Estados Unidos abrir um processo, pague um advogado e consiga a simpatia de um tribunal consuetudinário para validar o que você pediu. Na prática, o prejuízo é mais barato.

Mesmo que você esteja nos Estados Unidos e possa supor que nenhuma sociedade anônima (é isso que significa «public company» em inglês, seus tradutores de meia tigela)  jamais violará uma lei (nunca se ouviu falar de tamanha ousadia, não é mesmo?), ainda assim você ainda tem um problema: você assinou um contrato com o Facebook quando criou a sua conta, esse contrato é regido pelas leis da Califórnia, Estados Unidos. E os Estados Unidos, pátria do direito consuetudinário, queridos padawans, considera os contratos como sagrados. Lá não existe Código de Defesa do Consumidor e nem revogação de «cláusula leonina». Um processo contra o Facebook provavelmente resultaria em você ser condenado a pagar as custas, e só. Mas lembre-se que o Facebook contratará advogados muito mais caros que os seus.

A maioria das pessoas, porém,  não compartilha isso pensando seriamente em processar o Facebook em um tribunal californiano (judicialmente falando, a coisa mais parecida com por a cabeça dentro da boca de um crocodilo marinho e fazer cócegas em sua úvula). Não, elas fazem porque, seguindo a Aposta de Pascal, se tudo for verdade e todo mundo agir de boa fé (coisa que as sociedades anônimas sempre fazem, afinal), elas terão «protegido seus direitos» sem gastar nada! It's all free! Mas se tudo for mentira ou alguém agir de má fé (não que isso sequer tenha a menor chance de acontecer), pelo menos não gastaram nada! It's still free!

Você não se sente muito bem quando o seu grande argumento que justifica a sua crença serve também para explicar a difusão de spam e boatos estapafúrdios na Internet?