sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A Ideologia da Inveja, ou a Inveja da Ideologia

Faz parte do pensamento direitista típico uma peculiar disfunção cognitiva: uma incapacidade de enxergar corretamente a realidade, o que os leva a interpretações muito equivocadas dos fatos. Há, de fato, dois tipos de direitista: o conservador e o reacionário. Tanto quanto existem dois tipos de esquerdista: o reformista e o revolucionário. Para entender como funciona esta disfunção da direita é preciso por estes quatro lados em perspectiva.

O conservador é alguém que considera que vivemos no melhor dos mundos possíveis, ou quase isso, e que, portanto, é preciso evitar, ou minimizar as mudanças, para evitar que se rompa o frágil equilíbrio da realidade. Mudanças, se inevitáveis, devem ser pelo menos retardadas para que todos tenham tempo de se adaptar aos seus efeitos.

O reacionário é o indivíduo que crê vivermos em um mundo em decadência, que o passado era melhor, que os valores positivos da sociedade estão se perdendo e que é necessário fazer alguma coisa quanto a isto. Esta «alguma coisa» normalmente significa neutralizar toda iniciativa de mudança, pois toda mudança nos afasta do antigo mundo ideal, e reverter tanto quanto possível as mudanças que já aconteceram, responsáveis por nossa queda de uma idade de ouro pretérita.

Comparemos isso com a esquerda e veremos uma correspondência óbvia. O reformista se contrapõe ao conservador, tanto quanto o revolucionário ao reacionário. Mas ambos os extremos odeiam a todo o resto.

O reformista acredita que o mundo precisa melhorar, e para isso é necessário atacar as causas (ou os sintomas) dos problemas que atualmente existem. Geralmente adepto da democracia, o reformista crê que estas reformas podem ser feitas por consenso, através da conscientização das massas e de processos graduais, como reformas educacionais, aperfeiçoamentos legislativos, investimentos pontuais em desenvolvimento regional, etc.

O revolucionário acredita que o mundo não tem conserto, a não ser se substituirmos toda a estrutura sobre a qual suas instituições se assentam. Isso, claro, pode ser feito de forma pacífica, mas normalmente só acontece pelo emprego da violência (e bastante violência) porque aqueles que se beneficiam do status quo não aceitarão facilmente a remoção de seus privilégios. Revoluções são tentativas de adiantar o relógio da História algumas horas em alguns minutos. Costumam ser sucedidas por iniciativas reacionárias que atrasam o relógio algumas horas em alguns minutos, mas não todas as horas que haviam sido adiantadas antes. Assim, toda revolução produz mudanças duradouras.

Ambos os tipos de direitistas têm em comum o temor da esquerda. Por causa dele, se recusam a enxergar a distinção entre um reformista e um revolucionário. No fundo, o que lhes importa é que, pacífica ou violentamente, todo esquerdista quer mexer no seu queijo; então é preciso rosnar, mostrar as garras e, eventualmente, morder. Da mesma forma, o direitista não vê problemas em transitar para o reacionarismo: a radicalização é uma estratégia legítima, à medida que os desafios para a manutenção do status quo se tornam maiores.

A análise da situação política, quando feita por um direitista, assemelha-se muito a um discurso religioso. Quando não nega, pura e simplesmente, a existência de quaisquer problemas com a realidade (síndrome de Moranguinho), em vez de buscar causas materiais para os problemas materiais, o direitista busca motivações intangíveis, explicações metafísicas.

Por exemplo, a miséria não é causada por dificuldade de acesso aos meios de produção (entre eles educação de qualidade) ou baixa remuneração do trabalho, mas pela «indolência» ou «falta de capacidade de trabalho» do pobre. Este tipo de interpretação costuma ser fortemente racista, atribuindo o sucesso dos povos desenvolvidos a fatores genéticos ou culturais que «não existem» no povo brasileiro. Com um pouco mais de sorte você se deparará com o indivíduo culpando a «miscigenação» brasileira pelo nosso atraso.

Se os negros são menos favorecidos, isto não é porque sofreram um longo processo de dominação e exclusão, no decurso da escravidão ou posteriormente a ela, mas sim porque sua «cultura» não contempla o trabalho organizado, ou porque «têm uma obsessão com o pensamento mágico» em vez de trabalhar, coisas assim.

A desigualdade social é apresentada como algo natural, necessário, algo como o direito divino dos reis e nobres, tão essencial à estabilidade dos povos (segundo concebida até o século XX), que as jovens nações arrancadas do jugo otomano (Grécia, Bulgária, Sérvia, Romênia) receberam príncipes alemães para seus tronos. Não se concebia que o povo pudesse sequer ter um rei que não fosse originalmente de sangue azul. O pobre não se conformar com a desigualdade é ter «inveja» do sucesso de quem é rico. Ainda que o sucesso do segundo possa ser herdado e o fracasso do primeiro persista, mesmo diante de hercúleas lutas contra as portas e punhos fechados com que a vida recebe os que estão «de fora».

Causas imaginárias produzem soluções surrealistas. Em vez de atacar a miséria, ataca-se o miserável, como se fazia na Inglaterra do século XVII, com suas leis contra vadiagem que puniam com trabalhos forçados (não remunerados) os que não conseguiam emprego. Ou então explora-se o miserável, como nas estratégias assistencialistas eleitoreiras típicas de políticos fisiológicos e ligados às oligarquias.

Durante boa parte da História do mundo a partir do advento do Iluminismo, estas forças têm se enfrentado: a esquerda e a direita. A primeira, buscando sempre melhorar o mundo, segundo entende necessário ou possível. A segunda, oscilando entre negar a necessidade (ou a possibilidade) de qualquer melhora, ou francamente se propondo a reverter a obra da esquerda. A Revolução Francesa depôs reis, redesenhou fronteiras, criou conceitos novos (como os de República, Constituição, sufrágio universal e Direitos Humanos) e lançou a ideia de que era preciso acabar com os regimes baseados no privilégio de nascimento e no direito divino. A «Santa Aliança» conseguiu reentronizar algumas dinastias, mas cem anos depois nenhuma das nações invadidas por Napoleão estava imune à «gripe republicana». Uma a uma as monarquias foram caindo, os nobres foram condenados ao dolce far niente enquanto a míngua de suas fortunas não os forçava a casar-se na burguesia. A Igreja Católica nunca mais recuperou seu poder. De 1789 para cá ela não cessou de sangrar uma dia sequer. Apesar de todas as Santas Alianças, de todas as Machas da Família com Deus pela Liberdade e de todas as TFPs.

Este é só um exemplo da dinâmica da política: existem outros. O voto feminino foi uma bandeira da esquerda, combatido pela direita. Assim foram os direitos humanos, o fim da segregação racial e a igualdade de todos perante a lei. A direita resistiu com ditaduras, tortura, apartheid, national sozialist Partei… Foram os sindicatos, inspirados por Marx e Bakunin, que exigiram jornadas de trabalho razoáveis, salário mínimo, férias remuneradas, seguro desemprego, fundo de pensão, todas essas coisas que andam falando em «flexibilizar» porque a crise é grande.

A esquerda sempre teve soluções. Para acabar com a miséria era preciso impedir que as crianças ingressassem cedo demais no trabalho, o que as impedia de estudar. Para a direita, isso seria condenar todas à «vagabundagem» (esse termo genérico com que se desqualifica os que estão desajustados ou excluídos das engrenagens do sistema). Era preciso um sistema público de ensino, para que os pais pobres não tivessem que tirar pão da boca para pôr um lápis na mão do filho. Para a direita, uma escola gratuita faria com que as crianças crescessem «sem dar valor» ao conhecimento. Talvez permanecendo analfabetas elas dariam mais valor, ao que não tinham.

Quem tem ideias corre riscos. Vários dos planos «mirabolantes» da esquerda falharam. Em alguns casos a esquerda soube recuperar-se deles rápido, em outros nem tanto, de outros nunca. É muito fácil apontar os erros criticamente. Mas é preciso disfarçar que muitos fracassos se deram por forte oposição reacionária, por radicalização desnecessária (consequência de um ambiente de conflitos) ou mera ingenuidade. Nós, os esquerdistas, temos a ingênua ilusão de que podemos tornar o mundo um lugar melhor. Muitas vezes a luta da esquerda foi pervertida, sequestrada, confundida. Houve aproveitadores, sabotadores, ou meros líderes ineptos. O que nunca acabou nem acabará é a utopia de que é possível vencer a noite. Muita coisa mudou nesses dois séculos desde que o povo aprendeu que é possível deixar de ser súdito e passar a ser cidadão. Enquanto isso a direita continua dizendo que os problemas do mundo são insolúveis, que há mais males necessários do que bens possíveis e que todo movimento de libertação produz mais escravidão.

Nunca a direita esteve tão atuante no Brasil, tão visível. Eles têm a força, mas a força é tudo o que eles têm.