quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Deixemos que os Mortos Enterrem os Seus Mortos

Dois tipos de pessoas me incomodam neste mundo: as que defendem ideias mirabolantes somente pelo amor de destoarem do consenso, mesmo que tais ideias sejam absurdas, e as que se com­por­tam de forma incompatível com aquilo que proclamam ser. Exemplos do primeiro caso são os adep­tos de teorias minoritárias que resolvem ser céticos em relação ao conhecimento estabelecido, sem aplicar o mesmo ceticismo às teorias que atacam o «sistema». Assim são os que duvidam que o homem tenha ido à lua, os criacionistas, os anarco capitalistas, os últimos stalinistas e os propo­nen­tes do multiculturalismo. Exemplos do segundo caso são mais difíceis de discernir, porque é mui­tas vezes difícil discernir o que pessoas e grupos se propõem a ser. Como não publicam mani­festos nem estatutos, na maioria dos casos somos forçados a julgá-los pelos seus atos aparentes, uma circunstância que faz com que sempre nos acusem de interpretá-los mal. Existem, porém, alguns casos nos quais pessoas ou grupos efetivamente divulgam o que pretendem ser — nesses casos não há nenhuma defesa possível quando pilhados fazendo algo diverso do que consta em seus propósitos formais. A contradição não pode ser explicada senão por desvios éticos ou pela per­versão dos objetivos originais.


Desde 2007 eu venho acompanhando de longe (e com certo receito salutar) as idas e vindas do «movimento ateu» brasileiro. Foi um longo processo de aprendizado, tenho de confessar, e hoje eu sou bem mais sofisticado do que era no começo, graças à convivência com pessoas interes­santes que conheci nos grupos de discussão da Internet, desde antes até dos tempos de Orkut. Estas pessoas me ensinaram pelo exemplo, positivo ou negativo: algumas eu procurei emular, outras serviram como paradigma do tipo de papel que eu não pretendo interpretar. Sábios, tolos, convencidos, idealistas, heróicos, idiotas, attention whores, bebedores de Q-Suco, abraçadores de árvores, excêntricos, quinta-colunas, «gayzistas», criacionistas, organizadores, anarquistas, fundamentalistas, partidá­rios da esquerda ou da direita, químicos, viciados em químicos, historiadores, contadores de histórias, homofóbicos, bichos-grilos, filósofos, randroides, suicidas em potencial, sapatonas, apedeutas, bichas, econo­mistas de apostila, homens de um livro só, ratos de biblioteca, malhadores de ferro frio, esmurra­dores de pontas de faca, ledores de um autor apenas, vagabundos sustentados pelos pais, patri­cinhas, farofeiros, marombeiros, macumbeiros, putanheiros, maconheiros e marinheiros das mais diversas viagens. Toda essa variedade de gente com quem convivi me ensinou alguma coisa. Dentre todas as lições aprendidas, uma em especial: ninguém convence ninguém com argumentos porque todos entram em qualquer debate encouraçados por seus preconceitos, protegidos por uma grossa carapaça de ignorância, que só pode ser rachada a golpes lentos. E ninguém realmente muda ninguém: cada um vai se tornando gradualmente aquilo que pensa em ser. Só pode ocorrer uma mudança de ideia no meio do caminho, e nisso reside a esperança do mundo. Apesar de que a mudança de opinião raramente é para melhor, como dizia o meu avô: o bom ficar ruim basta um escorregão, para o ruim ficar bom, só com uma corda e uma junta de bois.

Enquanto fui aprendendo estas coisas, fui percebendo sucessivas tentativas de controlar a massa crescente de descrentes através de órgãos supostamente representativos da antirreligião ou da irreligião. Regra geral, os líderes que surgiram nesses momentos nunca estavam à altura de quem se propunham a representar — o que parece ser uma maldição da política brasileira, caracterizada por uma quase cacocracia. As figuras mais legítimas no seio do «movimento ateu» nunca avança­ram com a ideia de criar coletivos («igrejas ateístas», como os cristãos costumam chamar a tais iniciativas) e, quando muito, entraram em alguma como seguidores, não como pastores. Cada nova iniciativa parecia mais atenuada e menos focada que a anterior. Eximo-me de mencionar cada uma porque não estou aqui para escrever a história do «movimento ateu», nem para isso estou plenamente qualificado. O que me importa é que todas estas instituições traíram seus objetivos originais por causas as mais variadas, a principal sendo o desejo de agregar suficientes seguidores para ter visibilidade fora da internet.

Não há nenhum problema na ambição de crescer. O problema está em não conseguir discernir a dife­rença entre crescer, inflar e inchar. Ou entre ocupar um espaço e espalhar-se num espaço. Algumas organizações ateístas encontradas na internet possuem defeitos graves, mas têm, pelo menos, a decência de se manterem fieis aos seus objetivos e público originais, adaptando-se gra­du­al­mente à própria evolução de sua liderança, pelo próprio processo dialético de liderar. Outras, como a que passo a comentar, parecem ter posto de lado sua visão inicial e partido definitiva­mente para um compromisso amplo e inclusivo, desfocando a identidade cética presente no começo. Refiro-me, claro, à Liga Humanista Secular e ao seu blog oficial, o «Bule Voador».

O sitio da Liga Humanista Secular já passou por várias encarnações, nem todas de meu conhe­ci­mento, e é bem possível que ele tenha contido originalmente informações além das que hoje posso ver lá. No entanto, se não possui uma página «Quem Somos» na qual se delineie, preto-no-branco, em que realmente está baseada a atuação da LiHS, ainda exibe uma curta descrição que diz: Associação dedicada ao humanismo secular: causas céticas e ciência com valores baseados na ética consequencialista e nos direitos humanos. Ademais, o Bule Voador explica seu nome citando Bertrand Russell:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados, em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro.

De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.

Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice.

Entretanto, se a existência de tal bule de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.

Não pode haver uma defesa mais enfática do ceticismo e nem um ataque mais eficiente contra o pen­samento religioso e seu modus operandi do que as observações feitas por Russell nestes pará­grafos. Não parece haver nenhuma dúvida de que o «agnosticismo» do filósofo britânico era uma mera precaução epistemológica e que, aos olhos do vulgo, ele seria um paradigma perfeito de ateu, tal como o biólogo Richard Dawkins, que também é agnóstico. Nunca compreendi de onde foi que tiraram que o agnosticismo se contrapõe ao ateísmo. Infelizmente perdi muito e amigos tentando argu­mentar que as pessoas que enxergam tal contraposição e se identificam com ela só estão que­rendo construir um muro sobre o qual possam se proteger da acusação quase ofensiva de ateísmo, ao mesmo tempo em que não conseguem mais voltar ao seio de uma religião pura e simples.

Partindo de tais premissas, o Bule Voador se apresentou a princípio com uma linha de atuação iden­ti­fi­cada com o pensamento racional e laico, embora tenha preferido os termos «humanista» e «secular» para expressar as respectivas posições. No começo pareceu que isto se deveu apenas a uma tentativa de identificação com entidades internacionais que a LiHS dizia representar, como a International Humanist and Ethical Union. Porém algo começou a parecer turvo na água do bule. O primeiro sintoma de que o chá servido pelo Fervoroso estava batizado aconteceu quando o blogue da LiHS abriu espaço para os advocati fidei. O segundo foi a obsessão do «Bule Acadêmico» em negar o caráter cético da posição ateísta, preferindo reduzi-la a uma crença, em artigo que já comentei aqui (e cuja última parte o autor até hoje não ousou publicar, mas estou monitorando).

Não é nada fácil explicar o motivo pelo qual um blogue cético, muito justamente inspirado por uma das mais devastadoras demonstrações do absurdo da crença religiosa que uma mente humana foi capaz de conceber, calhou de convidar pregadores religiosos para «dizerem alguma coisa» através do Bule Voador. Que os religiosos aceitassem era previsível, pois todo adepto sincero faz proselitismo, para poder atrair para o seio de seu rebanho aquele que pasta fora da cerca. O que não faz sentido é que tal convite tenha sido feito por pessoas que deveriam ter entendido a metá­fora do Bule de Chá com o que realmente é: a afirmação de que, racionalmente falando, a religião nada mais é do que a crença em coisas que não se pode ver, legitimada pela tradição e imposta pelo costume, pela coerção social e pelos interesses ideológicos. O que os membros da LiHS espe­ra­vam que os advogados da fé fizessem? Que postassem letras de música? Bem, alguns até fizeram isso, ao perceberem que não teriam como enfrentar o debate pelo lado da argumentação: restava-lhes tentar «tocar corações» (algo que, para falar a verdade, eram os sacerdotes astecas que faziam melhor). Mas o convite subitamente faz todo sentido se você esquecer que a LiHS surgiu no seio do «movimento ateu» e pensá-la como um projeto mais amplo, sem compromisso algum com o ateísmo, com Bertrand Russell ou com o ceticismo. Um movimento que precisa de adeptos, mesmo quem não tenha lido filosofia e nem entenda que raios é «ceticismo», mas que possui um sentimento difuso de que «não é ateu» (embora muitas vezes tal rejeição seja fruto de uma ideia deturpada do ateísmo) ou que não segue nenhuma religião em especial mas acredita em «algo maior» (que não sabe dizer o que é, mas curiosamente se parece com um Velho Barbudo que fica sentado numa nuvem). Esse bando de pessoas confusas que já são bastante inteligentes para não se deixarem ordenhar por televangelistas, que são bastante autônomas para recusarem que um velhinho que vive na Itália lhes proíba de transar com camisinha, mas que ainda se apegam ao medo atávico de se verem «sem religião» — esse é o público no qual a LiHS quer crescer. Para chegar até eles é preciso ter advogados da fé, é preciso esconder a cara do Russell e seu cachimbo, é preciso adotar um ícone, um discurso, uma ética consequencialista ou qualquer bandeira incontroversa, como os «direitos humanos». Desapegando o Bule do discurso raivoso dos ateus que sofreram na carne e na alma os preconceitos e violências da sociedade que os demoniza e reprime, a «Liga Voadora» quer ir mais alto, mesmo que ao preço de deixar os ateus no chão, afinal, eles são uma pequena minoria.

Houve outros indícios de que o Bule estava se transformando num projeto político voltado justa­mente para a maioria, esta mesma que já tem todos os outros partidos e bandeiras. Indícios de que o crescimento que importava era em números, mesmo que os novos adeptos não se enquadrassem com sinceridade em nenhuma das minorias tradicionalmente associadas ao «movimento ateu». Indícios, enfim, de que a LiHS estava buscando adesismo e não crescimento verdadeiro.

A comprovação definitiva de que o Bule não está mais compromissado com a defesa dos objetivos e valores das minorias irreligiosas veio neste mês de setembro, época em que desabrocham as flores, os amores e as ideias estranhas. Refiro-me a duas coisas específicas: uma série de artigos «Desmentindo Imagens Religiosas Preconceituosas» e o texto «Religiosidade e Bondade: o Bom Samaritano». Já que o pessoal do Bule anda gostando de epigrafar artigos com versículos bíblicos, vou lhes deixar um de sugestão: «Que os mortos enterrem os seus mortos» — Lucas 9:60 (ou Mateus 8:22, se você preferir).

Da mesma forma que o cético não deve tomar para si o fardo de destrinchar e explicar toda a floresta de ilusões, enganos, mentiras, superstições, medos atávicos e lógica torta que caracteriza uma religião; não deve também tomar para si o trabalho de defendê-la. É verdade que há muitos comentários contra a religião que são feitos por pessoas ignorantes ou preconceituosas. Feliz­mente para as religiões existem no mundo inteiro milhões de clérigos e teólogos de todos os tipos que podem encarregar-se de desmentir essas peças irritantes. Não há uma quantidade equivalente de pessoas com acesso à mídia capacitadas ou interessadas em defender as minorias irreligiosas dos ataques que são feitos contra todas as formas de descrença por pessoas também ignorantes e parciais. Não seria sábio, então, deixar que todos esses religiosos que aparecem na televisão e no rádio e nos jornais se encarregassem de defender suas respectivas fés e instituições desses ataques preconceituosos? Por que ocupar com esta defesa espaço precioso em um blogue que deveria ajudar a defender as minorias que não têm voz? Dirão que há muito espaço no blogue e que este tipo de conteúdo não prejudica os objetivos outros do Bule Voador. Direi que existe muito espaço no copo de cerveja e não há de ser uma mosca que vai prejudicar o meu prazer de beber.

Da mesma forma não faz sentido argumentar em favor da religião em um blogue inspirado por Bertrand Russell. Sei muito bem que a inspiração se prende mais a palavras do que pessoas — e é por isso eu exibo como frontispício deste meu blogue uma frase do Buda Gautama. Não faz dife­rença quem disse o que, o importante é aonde as palavras nos levam. Não sei se as palavras de Russell estão guiando o Bule Voador mais.

No referido artigo sobre o Bom Samaritano o Bule Voador ajuda a difundir uma série de coisas que só fazem bem aos movimentos religiosos. Primeiro, a noção de que a religião é essencial para a difusão de valores éticos. Segundo, que a Madre Teresa de Calcutá é uma figura positiva para a construção de uma sociedade mais humana. Terceiro que os indivíduos religiosos apresentam com maior frequência do que os irreligiosos uma série de qualidades que vão desde o altruísmo até a preocupação com a autoimagem. Sai-se do artigo com uma certa culpa por ter saído da igreja e com a dúvida de que talvez fosse uma boa ideia voltar para lá. Este é o papel do Bule Voador agora? Fazer proselitismo religioso amparado em qualquer dos inúmeros estudos publicanos anualmente nos Estados Unidos para legitimar a religião?

E nem falemos que o artigo não menciona a controvérsia sobre o papel de Madre Teresa, a natureza real de sua «compaixão» pelos pobres indianos, os discursos medievais e absurdos que fez contra o aborto, a contracepção, o divórcio e toda uma série de coisas já amplamente discutidas no movimento cético (a ponto de terem sido assunto de famoso documentário apresentado por Christopher Hitchens e posterior livro e serem mencionadas no artigo sobre Madre Teresa na Wikipédia) e que foram suficientes para barrar sua canonização, mesmo o ex papa João Paulo II tendo uma obsessão por isso. Em vez disso o artigo a chama de «sinônimo de bondade» e apenas menciona a «constante benevolência que ela demonstrou ao longo de sua vida». Este é agora o papel do Bule Voador? Difundir uma imagem rósea de líderes religiosos, mesmo havendo uma clara polêmica sobre seu caráter? A quem serve esse novo Bule Voador?

A mim ele não serve, não serve a ninguém que pertença a qualquer das minorias irreligiosas que existem no seio de nossa sociedade, à sombra das tetas gordas que sustentam os líderes de igrejas, com seus iates e mansões. Não serve a quem perde empregos por ser «servo de Satanás», não serve a quem é hostilizado pela família por não ir ao culto, não serve a quem recebe pregações prometendo convertê-lo «pelo amor ou pela dor», não serve a quem vê espaços públicos apropriados para usos eclesiásticos, e não serve a quem contempla, estarrecido, o esquartejamento da democracia pela insana farra dos partidos religiosos e suas bancadas, o «Centrão» contemporâneo.