segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O PT e seu Projeto de Perpetuação no Poder

Todo reacionário nutre uma espécie de desprezo absoluto pelo Partido dos Trabalhadores e tudo o que ele representa, de bom ou de ruim, indistintamente. O PT só é unanimidade entre os reaças: eles o detestam sem ressalvas. Uma das muitas acusações que é feita contra o partido é que possui um projeto de perpetuação no poder. Tão forte é essa «acusação» que ela já transbordou dos núcleos mais duros do reacionarismo e atingiu o mainstream político. Hoje você vê políticos de várias correntes oposicionistas e veículos da grande imprensa dando vazão ao conceito de que existe uma tentativa «lulopetista» de eternizar-se na presidência. Para uma acusação que começou com Olavo de Carvalho e Merval Pereira (o imortal que não escreveu nenhuma obra literária) é até uma difusão surpreendente.

 Trata-se, porém, de uma acusação absurda, se você parar para analisá-la em seus próprios termos.

Em primeiro lugar, as ressalvas habituais (melhor aqui do que em notas de rodapé que ninguém lê): não sou petista, não tenho procuração para defender o governo (e nem obrigação moral) e não acho que tudo que se fez no Brasil lulista de 2002 para cá esteja certo. Não, não e não. Feitas as ressalvas, e também enfatizando que não  tenho informações privilegiadas, passo ao caso.

Imagino que todos os partidos políticos tenham projetos de perpetuação no poder. Considero que faz parte do jogo político a ambição de ganhar sucessivas eleições e manter-se no controle indefinidamente. Não acho que existam partidos que planejem perder a próxima eleição e entregar seus cargos aos adversários em nome de uma «alternância do poder». Creio que esta se faz pela vontade do povo, se e quando o povo quiser. Não cabe a nenhum partido decidir que não quer mais que o povo o queira. Tanto isso é verdade que no mundo todo existem casos de longos predomínios de partidos políticos em regimes democráticos:
  • O Partido do Povo da Áustria (ÖVP) manteve-se no poder, sozinho ou em coligação, por 16 anos (1946-1971), ao que se seguiu um longo predomínio do seu principal adversário, o Partido Social Democrata Austríaco (SPÖ), entre 1971 e 2000.
  • A Noruega foi governada pelo Partido Trabalhista entre 1936 e 1981, exceto durante a II Guerra Mundial (sob ocupação nazista) e por breves intervalos nos anos 1960.
  • Os Estados Unidos foram governados pelo Partido Democrata entre 1933 e 1953.
  • A  Grã Bretanha foi governada pelo Partido Conservador entre 1979 e 1997.
Nenhum desses casos foi apresentado como um risco à democracia (embora eu afirme isso com grandes ressalvas no caso britânico).

É natural que os partidos possuam «projetos de perpetuação no poder» quando eles possuem projetos de longo prazo, visões estratégicas que ultrapassam a eleição seguinte. Se nós justamente criticamos a miopia de nossos políticos, deveríamos festejar que alguns pensem no futuro mais distante.

Disso resulta que a existência de tal projeto não é nenhum mal em si. Mal haveria se o pensamento de perpetuação fosse acompanhado de estratégias para solapar a democracia, limitar a expressão da vontade do povo e estabelecer um autoritarismo. Enquanto existirem eleições livres, garantias constitucionais, livre acesso à justiça e integridade das instituições, não há mal nenhum em um partido ganhar eleições seguidamente. Um dia o povo cansa.

Esta acusação é, porém, muito reveladora das limitações intelectuais e programáticas de nossa oposição. Incapaz de pensar a longo prazo, refém de medidas paliativas, que visam à próxima eleição apenas, ela estranha que algum partido conceba uma visão de futuro que descortina um horizonte mais longo.