sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A Conspiração Anarcomiguxa

Qual a relação que você consegue enxergar entre o filme Zeitgeist e a modinha liber­tária que perpassa a internet? Nenhuma? Alguma vaga conexão que você não consegue explicar direito? Chega mais, senta e relaxa. Prepare-se para ler muito, e para descobrir a grande manipu­lação a que estamos sendo submetidos. Prepare-se para ter abertos os seus olhos: eu não espero convencer você, espero apenas apontar para onde o vento sopra, para que você olhe e veja por si aquilo que descobri agora há pouco, enquanto comia uma pizza de sala­minho com catupiry.

Mesmo mantendo um razo­ável ceticismo, não se deve excluir de antemão a possibi­lidade de que seja verdade aquilo que parece improvável. Pelo menos não enquanto não surgir uma explicação fun­cional que recorra apenas ao que é possível. A navalha de Occam, quando apli­cada de forma indiscriminada, funciona mais como um obstá­culo do que como um guia. Foi utilizando um princípio seme­lhante que Aristóteles desconsiderou a teoria atômica de Demócrito e propôs sua versão simples e cética dos quatro elementos. Com isso e mais a sua auto­ridade, atrasou o desenvolvimento da química por milênios.
Esta defesa prévia que proponho acima se deve à natureza do que vou escrever abaixo, que parecerá uma reles Teoria de Conspiração. Muitas pessoas se esquecem, ao fazer esse tipo de acusação, que, de fato, conspi­rações existem. As teorias de conspiração só se tornam ridículas quando envolvem participantes sobrenaturais (como os aliení­genas cinzentos) ou quando exigem o conluio de tantas partes diferentes, e durante tanto tempo, criando tantas difi­cul­dades, que a simples concepção de uma tal teoria dá mais trabalho do que supor, simplesmente, que a conspiração não existe. Não é o caso do que vou explicar. Posso estar enganado, mas mesmo que a conspiração não exista de forma deliberada e de antemão — e eu não afirmo que exista — o encadeamento do fato nos autoriza supor que, pelo menos, os fatos posteriores foram postos em ação a partir do conhe­cimento das condições prévias, de forma muito cuidadosa. Então, é irrele­vante a acusação de que tudo não passa de mera teoria de cons­piração: o simples encade­amento dos fatos já é um fenômeno interes­sante em si mesmo.

Comecemos por algumas definições importantes (algumas delas vão para o glossário). O «movimento anarco­miguxo» é a mais recente modinha entre os descolados da internet, tal qual o «movimento ateu» já foi um dia (e lamen­tavel­mente reconheço que o foi apenas como uma prepa­ração para um passo posterior, como passo a demonstrar). Trata-se da difusão de um deter­minado dis­curso político e econômico através de blogues, vlogues e perfis em redes sociais. Um discurso ultra­­conservador em termos políticos (mas suposta­mente «liberal» em relação aos costumes) e ultra­liberal em termos econômicos, a partir dos trabalhos da chamada «escola austríaca» de economia (que, apesar do nome, hoje se baseia nos Estados Unidos) e suas teses minar­quistas (estado mínimo) e ultra­capitalistas (libera­lismo econômico máximo). Este discurso não é novo, claro, mas um velho conhecido de quem estuda História ou se prende aos aspectos históricos da ciência econômica: trata-se do discurso do liberalismo, herdeiro dos fisio­cratas franceses (Turgot e Quesnay) por meio dos liberais ingleses (Adam Smith, David Ricardo e Stanley Jevons) e com um pedágio entre os aristocratas reacionários do império austro-húngaro (Menger, Böhm-Bawerk e Mises) que se refugiaram nos Estados Unidos diante da ameaça do nazismo e lá encontraram o terreno ideal para difundir suas ideias, iniciando seguidores como Murray Rothbard. Este discurso é temperado pela ideologia de Ayn Rand, uma escritora americana de origem russa autointitulada filósofa, expresso em calhamaços de difícil leitura, como A Rebelião de Atlas (Atlas Shrugged) e A Fonte (The Fountainhead).

Existem boas razões para se pensar que estamos vivendo um imenso processo de astroturfing (ou «lavagem cerebral através de propa­ganda de massas», se você prefere) que tem por objetivo dire­cionar a opinião pública em um sentido mais conser­vador, prepa­rando ter­reno, talvez, para interfe­rências políticas que satisfaçam essa «opinião pública espontânea». Um processo que pode ter sido preme­ditado, ou estar sendo «surfado» por pessoas que sentiram para onde soprava o vento. Um processo que começou com o filme Zeitgeist. Ou talvez antes, mas eu só o detecto a partir dali. As ideias ainda estão confusas, mais ou menos como você se sente quando tem a sensação de que tropeçou em algo grande. É o que sinto. Tenho até medo das conclusões a que estou chegando: nem todas eu incluirei neste texto. Que, no entanto, é o corolário deste blogue: é o desmas­cara­mento da «arapuca libertária» que eu, indis­tinta­mente, farejava no ar quando comecei a blogar aqui, faz uns dois anos.

Comecemos por Zeitgeist. A menos que você seja um imbecil quase completo ou não conheça quase nada nem de História, nem de economia e nem de engenharia ou física, você percebeu que esse filme, do qual hoje quase nem se fala mais, possuía mais furos do que um queijo suíço. Na época eu me senti ultrajado de ver a gros­seria com que o realizador, «Peter Joseph», manipulava a mitologia egípcia (minha mais ou menos conhecida) a fim de «provar» que Jesus e Hórus possuíam dezenas de elementos comuns na biografia. O filme foi bem sucedido em plantar essa ideia de jerico na cabeça do povo (pelo menos na parte do povo que pensa e age como jerico), tanto assim que Jesus = Hórus se tornou um meme na internet: volta e meia vê-se um ateu «jogando na cara» de algum religioso essa «informação revolucionária». Dá vontade de olhar-lhe fixamente dizer: «ó, que descobrida cê fazeu!» O sucesso de Zeitgeist em incorporar essa informação falsa no imaginário popular, ou pelo menos no imaginário da subcultura virtual a que chamo de «movimento ateu», é uma prova do quanto é perigoso o processo de astroturfing a que me refiro, e que passarei a qualificar, dora­vante, de «A Conspiração Anarcomiguxa».

Zeitgeist possuía três partes, e nem mesmo os fãs do filme conse­guiam entender completamente a relação entre elas: a primeira argumentando que Jesus é um mito astrológico de origem egípcia, a segunda dizendo que o atentado de 11/09/2001 foi feito por agentes do próprio governo americano e a terceira dizendo que o sistema bancário internacional se sustenta em uma fraude, a moeda fidu­ciária (fiat money, como eles gostam de dizer). A aparente desco­nexão entre os assuntos levou a muitas teorias mirabolantes sobre as razões dos temas terem sido inseridos em um mesmo filme. A minha teoria mirabolante particular era de que o filme procurava inculcar em quem o visse uma menta­lidade anti-semita. Afinal, o filme começava «provando» que Jesus não era um judeu, dizia que o maior atentado da história americana fora come­tido pelo próprio governo ianque e terminava dizendo que o governo estava sob o controle dos judeus (que não têm, claro, nenhum parentesco com Jesus). Faz sentido sim, e até pode ter sido uma das intenções originais dos realizadores de Zeitgeist, mas isto não explica tudo.

Existem duas maneiras de encarar a História. Uma que a vê como o enca­de­amento de fatos sucessivos, sempre influ­en­ciados pelo passado, e raramente resultantes de deli­be­ra­ções. E uma que a vê como um processo cheio de idas e vindas, influenciado não exatamente pelo passado, mas por fluxos e conjunturas que, em certas fases, parecem antecipar momentos futuros. Se analisarmos as modinhas da internet que têm relação com os três temas abor­dados no filme, veremos que as explica­ções que obtemos pela apli­cação de cada uma das duas maneiras resultam diferentes. Se pensarmos na história como um processo unívoco, então a modinha libertária pegou carona no refluxo do movimento Zeitgeist, do qual ninguém quase ouve falar mais, e requentou alguns dos mesmos temas, radicalizando naqueles que interessam aos que seguram a mangueira que faz a lavagem cere­bral das massas. Mas se pensarmos na História como algo um pouco mais dinâmico, nos perguntamos se esse próprio refluxo não era esperado, ou até previsto, e se não teria havido, desde o início, um direcionamento que permitisse o surgimento, após o refluxo do MZ, de uma nova modinha exatamente com as características da que surgiu de fato. Mineiro que sou, declaro-me adepto de ambas as teses, mas não vejo motivos para negligenciar a segunda: de fato ela me parece sugestivamente forte, como vou argu­mentar.

O primeiro sinal em minha consciência de que havia uma coisa qualquer de podre na metafórica Dinamarca foi quando tomei conhe­cimento do rompimento entre o Movimento Zeitgeist e o Projeto Vênus. Isso ocorreu em abril de 2011, mas o MZ é tão rele­vante que eu demorei um ano e meio para ficar sabendo, e ninguém notou nenhuma diferença no universo por causa disso. Not a single fuck was given. Eu sempre achei que ambos (MZ e PV) eram mastur­bações intelectuais de ativistas inter­néticos movidos a leite de pera, ovomaltine e generosas baforadas de mari­juana. Estava enganado (eu me engano muito, mas raramente alguém se importa de me mostrar isso). Embora previsto e previsível, o refluxo do MZ era parte de um processo. Depois de se apropriar das ideias de Jacque Fresco e Roxanne Meadows, as pessoas por trás do MZ passaram a ter um conjunto bastante grande de ideias e propostas, a ponto de poderem se caracterizar como um tipo de partido político ou religião — só não tinham projeção social para isso, porque o MZ era tudo menos receptivo. Então era neces­sário tirar de cena o MZ e passar à fase seguinte do projeto. E vocês repararam que a modinha anarcomiguxa começou a criar força à medida em que o MZ perdia força? Vocês acham isso coincidência?

Poderíamos resumir dizendo que o filme Zeitgeist prepara caminho para uma ideo­logia direitista extremamente reacionária poli­ti­ca­mente, ultraliberal no sentido econômico. Faz isso desacre­di­tando o cris­tianismo, que oferece uma mensagem social que pode ser usada para defender um socia­lismo que não seja ateísta. Desa­credi­tado o cristianismo, é possível insurgir contra todas as formas de cole­ti­vismo e preocupação social sem o risco de vê-las legitimadas pela religião. Depois Zeitgeist apresenta o estado como inimigo do povo, o que legitima o ataque ao estado como uma guerra liber­tadora — ainda que boa parte das garantias de direitos só existam através do Estado. Por fim, lança dúvidas sobre o sistema econô­mico existente, preparando caminho para as teses da escola austríaca e seu ultraliberalismo.

Por isso eu digo que o movimento anarco­mi­guxo não existiria sem que Zeitgeist tivesse existido. A modinha anarco­mi­guxa inclui quatro elementos centrais:
  1. pensamento individualista
  2. radicalismo da ação política
  3. o ultraliberalismo econômico
  4. dicotomia maniqueísta
O individualismo exacerbado, a ponto de alguns usarem mesmo o termo egoísmo e se negarem qualquer responsabilidade sobre as conse­quências de seus atos sobre outrem (ou melhor, conforme correção enviada por um leitor abaixo: qualquer obri­gação de agirem em benefício de outrem), deriva das obras de Ayn Rand, romancista americana de origem russa, auto­intitulada filósofa (embora suas obras sejam livros de ficção).  Este tipo de postura, obvia­mente, induz ao radica­lismo, pois uma filosofia destas fatal­mente resulta em um pequeno número de satis­feitos e grandes massas de explo­rados. Nas obras de Rand isso redunda em dita­duras que subjugam as massas, destroem suas formas de organização solidária (sindicatos, por exemplo) e impõem um tipo de governo «dos melhores». Defensores mais modernos e menos deslavados, que não teriam coragem de, como Rand, admirar um estu­prador e esquarte­jador de meninas, preferem propor a coisa em termos mais pala­táveis, suge­rindo uma tecno­cracia ao exigir que os gover­nantes sejam «preparados». Alguns chegaram a exigir pré-requisitos para o exercício da adminis­tração pública tão elevados que pratica­mente nenhum líder mundial se qualificaria.

Percebe-se, clara­mente, que as teses anarco­mi­guxas (ou minar­co­mi­guxas, para agradar a alguns mais específicos) formam um todo coerente, embora trazidas da obra de dois autores de origens tão diversas: Mises um lambe-botas dos aristocratas do Império Austro-Húngaro que foi ado­tado como guru nos EUA na época do macar­thismo e Rand uma judia russa dotada de um forte senti­mento anti­popular, antis­sindical, antis­social e anti­ético (no sentido de que negava uma ética comum à cole­ti­vidade, propondo um egoísmo racional que, logicamente, só seria ético para quem a adotasse). Esses autores possuem suas idios­sincrasias: o ateísmo egoísta de Rand e o mani­queísmo into­lerante de Mieses poderiam causar certos atritos com persona­li­dades mais sofis­ticadas ou mais religiosas. Isso explica o filme Zeitgeist.

Se pensarmos que havia, desde o início, a intenção de estimular o surgi­mento de uma «opinião pública» girada à direita e que os deten­tores de tal inten­ção perce­beram que isso poderia ser feito apenas através da subver­são da ética, insti­lando um egoísmo cuja justi­ficação mais acessível estava na obra de Rand; percebe-se a neces­sidade de aplainar as arestas da perso­na­li­dade desta para torná-la mais aceitável ao grande público. Em outra época uma pessoa como Rand seria tachada de epítetos desa­gra­da­bi­lís­simos. Particular­mente proble­mático seria o seu ateísmo.  Além do mais, uma crítica defini­tiva ao socia­lismo não pode ser feita sem se ter primeiro desa­cre­ditado o cristia­nismo, devido às muitas seme­lhanças existentes entre as propostas sociais cristãs contidas na Bíblia em si e aquelas teorias avan­çadas pelos marxistas.

Então, quem criou o filme Zeitgeist fez uma parte para «provar» que o mito de Jesus é «falso», o que serviu para esti­mular o surgi­mento e popu­la­ri­zação de um tipo de «ateísmo miguxo» baseado na revol­tinha e em doses cavalares de igno­rância, leite de pera e ovo­mal­tine. Daí, quando é apre­sentado às ideias de Rand, não acha problema algum o ateísmo dela, acha até vantagem. O neo-ateísmo, voltado para a direita, não deriva do ateísmo histórico, tradicionalmente de esquerda, mas dos delírios egoístas de Rand, que leu Nietzsche, entendeu mal e o perverteu de forma a justificar sua revolta pessoal contra o Estado soviético.

As outras partes do filme atacam o sistema econômico. Elas são, de fato, o objetivo central do filme. A primeira parte é só uma isca para ateus revol­tados. O anar­co­mi­gu­xismo propaga a ideia de que um «estado mínimo» seria mais pacífico, princi­pal­mente porque não poderia coagir os seus cidadãos (que, diga-se de passagem, estariam armados até os dentes, com todo tipo de armas de fogo que pudes­sem comprar). Isto explica porque o primeiro filme fez tanta força para provar que um órgão do governo, a CIA, planejou e exe­cutou o atentado de 11/09/2001. Ao organizar um atentado contra o povo, o Estado se revela «o que é»: inimigo do povo. Então o povo deve enfra­quecer o Estado para libertar-se (por isso os anar­co­mi­guxos se dizem «libertários»).

A suposta paz de que se desfrutaria com a eliminação, ou pelo menos a inanição do Estado, é tão irrealista que os próprios anar­co­mi­guxos admitem que a função de polícia teria que ser mantida, a fim de poder garantir a «ordem social». Uma ordem social opres­sora mantida por uma polícia a serviço de uma elite egoísta não me parece algo muito liberto, mas os liber­tá­rios não estão interessados em libertar a todos, apenas a si mesmos. Então faz sentido.

Finalmente, temos algo bem mais explícito, que é a relação entre a crítica dos «austríacos» à moeda fiduciária e aos bancos centrais, encon­trada quase ipsis litteris na terceira parte de Zeitgeist, na qual temos a «revelação» de que o dinheiro que conhece­mos não possui valor intrín­seco (ó, que descubrida!) e que a função dos bancos centrais é inter­mediar o endi­vi­da­mento do Estado. De certa forma, sim, mas esta inter­me­diação deveria ser no sentido de controlá-lo. Engraçado que os anar­co­mi­guxos são contra os controles estatais, mas protes­tam contra o endi­vi­da­mento descon­tro­lado do Estado, que é causado justa­mente pela elimi­nação de regu­lações. É uma valsa do austríaco doido isso aí.

Vemos, então, que as três partes prefiguram. Colocando tudo em um caldeirão e deixando fermentar, perce­bemos que alguém, em algum lugar, concebeu Zeitgeist como a semente de um movi­mento direitista ultra­liberal suposta­mente espon­tâneo, mas de fato diri­gido difusa­mente através de vídeos virais e sites de refe­rência (como o Instituto Mises). Isto é o astro­turfing de que falei. Para isso atacou a religião cristã, preparando terreno para a aceitação das ideias de Ayn Rand (que são essen­cial­mente anticristãs e, por isso mesmo, também anti­co­munistas). Ao mesmo tempo criou a teoria de que o atentado de 11/09/2001 teria sido promovido pelo governo ame­ri­cano, a fim de fazer com que muitas pessoas passassem a des­confiar do governo enquanto insti­tuição. E por fim, difundiu a men­sagem de que o dinheiro não tem valor intrínseco e que os gover­nos se endi­vidam inde­fi­ni­da­mente, preparando-se para enfrentar a crise ine­vitável, durante a qual os valores liberais seriam postos em xeque.

Em relação às teses do filme, deve-se dizer que se elas fossem intei­ra­mente absurdas elas não teriam credi­bi­li­dade. Elas são falsas não porque são absurdas, mas porque mis­turam absurdos e verdades, de forma que um conta­mina o outro. O absurdo reduz a credi­bi­li­dade do que é verdadeiro, e a verdade empresta valor ao que é absurdo. Em relação a Jesus, por exemplo, é verdade que ele é um mito. É mentira que esse mito não tem conexão com uma figura histórica real. É verdade que este mito tem origem helenística, influ­en­ciada pelo judaísmo, e não judaica. Mas é mentira que seja pura­mente um culto astro­lógico. É verdade que Jesus foi miti­fi­cado usando elementos comuns e arque­típicos. Mas é mentira que havia um protótipo de «Deus sofredor» no qual Jesus, Dionísio, Hórus e Adônis estariam compre­endidos. É verdade que vários ele­mentos da biografia de Jesus se base­aram nas biografias de outros perso­na­gens de outras mitologias. Mas é mentira que algum perso­na­gem tenha todos os elementos da biografia de Jesus (e se tem, não é Hórus o melhor modelo, mas Hércules). Não me atrevo a comentar demais sobre as outras duas partes, porque a minha área é a História. Mas suponho que também nelas impera esta mistura indis­cri­mi­nada de verdade e mani­pu­lação deslavada. Existem boas fontes na internet para se pesquisar isso, mas eu não preciso pesquisar, porque pelo dedo se conhece o gigante.

Depois de ter difundido esse conjunto aparentemente desconexo de ideias, os idea­li­za­dores do Zeitgeist descobriram o Projeto Vênus, com suas ideias de tecno­cracia futurista e governo mínimo, baseado em «cidades susten­táveis». Ao mesmo tempo começou a bombar na internet o conceito das «cidades-estado» (charter cities), proposto pelo cien­tista polí­tico ame­ri­cano Paul Romer. Tanto as cidades sus­ten­táveis de Jacque Fresco quanto as cidades estado de Romer seriam uni­dades autô­no­mas, fechadas em si. Comu­ni­dades isoladas e autos­sufi­ci­entes como Galt's Gulch (o refúgio dos super homens de Ayn Rand, em A Revolta de Atlas). A separação entre o Projeto Vênus e o Movimento Zeitgeist indica que, de fato, essa união não foi nunca essencial: o Projeto Vênus era esquer­dista demais em suas preo­cu­pações sociais. A separação era esperada. No entanto, o Projeto Vênus e a difusão do conceito de cidades-estado tiveram sua função: criar a impressão de que existe na aca­demia um pensa­mento liberal minar­quista relevante e que não é carac­te­ris­ti­ca­mente vinculado com a direita.

O conceito básico envolvido é a minarquia, a diminuição do poder do Estado até ele se tornar mera­mente um instru­mento de orga­ni­zação ao nível local e básico, algo suposta­mente melhor do que o grande estado que conhe­cemos. Quando tudo isto alcançou uma massa crítica, ao se tornar viral na internet, os movimentos ori­gi­nais foram aban­do­nados porque já se havia criado um estado mental recep­tivo à propo­sição das ideias inicial­mente aven­tadas pelo Zeit­geist e pelo Projeto Vênus. Foi então que se começou a ouvir falar de Mises e da Escola Austríaca e o governo de Honduras, fruto daquele golpe canhestro patro­cinado pelos EUA, resolveu criar duas cidades estado no padrão de Romer para testar sua hipótese. São várias fren­tes de batalha simul­tâneas, todas bombar­de­ando a ideia ultraliberal no fim.

Conforme se nota no gráfico forne­cido pelo Alexa.com, ao longo de quase todo o ano de 2011 há um aumento (não muito regular) dos aces­sos ao site www.mises.org, a nave mãe do movi­mento anar­co­miguxo. Em 2012 já se nota um decrés­cimo sig­ni­fi­ca­tivo, pois parece que, enfim, as pessoas não gos­ta­ram muito da verda­deira face do que estava por trás da modinha. Pelo menos não a nível global. Mas há algo dife­rente  a se notar quando ana­li­samos o mesmo gráfico em relação ao capítulo bra­si­leiro do Instituto Mises.

Aqui a coisa é diferente, enquanto lá fora os acessos ao Insti­tuto Mises estão caindo, entre nós parece haver um inte­resse cres­cente nas ideias ultra­li­berais da Escola Austríaca. Enquanto nos anos anteriores os acessos pouco pas­sa­vam do traço, em 2012 , espe­cial­mente nos últimos meses, ocorre um cres­ci­mento bastante claro, a ponto de o tráfego brasi­leiro, sozinho, quase igua­lar o da matriz ameri­cana. Evi­den­te­mente o movimento anar­co­mi­guxo inter­na­cional deu chabu, mas anda bom­bando no Brasil.

E isso nos leva a… essa tentativa ridícula de se criar de novo como partido a Aliança Reno­vadora Nacional (Arena), o espan­talho ide­o­ló­gico que dava cober­tura pseudo­par­ti­dária à dita­dura mili­tar bra­sileira. Não teríamos chegado ao ponto de se propor aber­ta­mente a recria­ção da Arena se não tivesse acon­tecido antes um longo pro­cesso de pre­pa­ração. A ideia de uma direita total­mente des­co­nec­tada de pre­ocu­pa­ções sociais, aven­tando uma meri­to­cracia que não exis­tiu nunca. Isso só está acon­te­cendo porque há pelo menos uns cinco ou seis anos a menta­li­dade do povo vem sendo pre­pa­rada por con­te­ú­dos difun­di­dos digi­tal­mente para legi­ti­mar as teses da direita mais extrema.

Perceberam aonde quero chegar: alguém em algum lugar teve a boa ideia de tentar criar uma geração de jovens reaças a fim de dar subs­tância a um movi­mento rea­cio­nário. Isto era muito neces­sário, tendo em vista as suces­sivas crises do capi­ta­lismo a par­tir dos anos oitenta, aliadas ao cres­ci­mento de certas eco­no­mias emer­gentes, o sucesso de pro­je­tos que confli­tam com o pen­sa­mento esta­be­lecido (como Argen­tina, Islân­dia e Vene­zu­ela) e também a orga­ni­zação para­lela dos países peri­fé­ricos (como os BRICS). Estes desen­vol­vi­mentos ame­açam o con­senso capi­ta­lista e liberal, que triunfou com a queda do comu­nismo em 1989, especial­mente agora que a Europa está em crise também.

O fascismo se alimenta de crises. Não é surpre­endente que justa­mente Grécia e Espanha estejam vendo crescer seus movi­mentos de ultra-direita (Aurora Dourada e Falange Católica, respec­ti­vamente). Mas o fas­cismo também pode ser utili­zado para insu­flar insta­bi­li­dade em países que se quer deses­ta­bilizar — e me parece muito claro que há um inte­resse em deses­ta­bi­lizar as insti­tui­ções brasi­leiras, já que em vez de alinhar-se aos inte­res­ses pre­do­mi­nantes o Brasil pre­fe­riu aproximar-se de Venezuela, Argentina, Rússia e outras ovelhas negras.

As ideias ultraliberais e fascistóides parecem não ter sido muito bem sucedidas lá fora, onde as pessoas são, em geral, mais bem infor­madas do que aqui — e menos inte­res­sadas em maca­quear os ian­ques. Somente estão funcionando em países acu­ados por crises eco­nô­micas extre­mas, como os citados. Mas entre nós, os boto­cudos, todo espe­lhinho que venha de fora parece o máximo, mesmo essas ide­o­logias conce­bidas para nos fazerem mal. Isso explica por­que, fora a Guatemala, citada pelos próprios mise­anos como exemplo de país onde a Escola Austríaca é ensi­nada como dou­trina main­stream, o Brasil seja um dos países onde o inte­resse pela babo­seira pseudo­cien­tí­fica da Escola Austríaca esteja ganhando popu­laridade.

E simultaneamente querem refundar a Arena, cri­mi­na­li­zar a polí­tica (jul­ga­mento do Men­sa­lão) e usar o terror como jus­ti­fi­ca­tiva para o endu­re­ci­mento (vio­lência em São Paulo). O ovo da serpente está chocando. E há polí­ticos opor­tu­nistas esquentando-o, pen­sando em votos. Ou pisamos logo nele, ou em breve esta­remos fugindo de uma cobra bem venenosa.