terça-feira, 27 de novembro de 2012

Ateísmo e Vegetarianismo: Reloaded

De tempos em tempos a velha polêmica ressurge: existe algum imperativo moral envolvido na opção pela descrença em deuses? Para muitas pessoas, como eu, não existe nenhum: suas convicções morais dependem de fatores sociais e familiares e a descrença não afeta positiva e nem negativamente — a não ser que esses fatores sejam originalmente fracos e a crença funcionava como a tranca da Caixa de Pandora. Para outras pessoas, porém, tudo é muito diferente: tornar-se ateu envolveria necessariamente uma opção ética e lógica, com implicações morais.


Não é preciso elaborar muito para perceber que posições diferentes quanto ao vegetarianismo correspondem, na verdade, a duas formas diferentes de encarar o ateísmo. Em uma sociedade plural, na qual todos têm o direito de associar-se e de expressar seus pontos de vista impunemente, não deveria haver nenhuma surpresa quanto à existência de posicionamentos discordantes sobre qualquer assunto. Isso quer dizer que eu aceito como perfeitamente naturais e válidos os argumentos dos que são simultaneamente ateus e vegetarianos: essa associação surgiu neles por consequência de suas convicções pessoais, de suas vivências sociais e de suas aprendizagens. Não se pode negar a ninguém o direito de associar dois comportamentos, mesmo que pareçam incompatíveis aos nossos olhos. Até mesmo um açougueiro vegetariano é aceitável, visto que você não precisa necessariamente gostar daquilo com que trabalha (se fosse assim, ginecologista seria sempre homem heterossexual ou mulher lésbica). A falha, grave, está em enxergar uma obrigatoriedade nesta associação. O tal “imperativo moral” de que falei. Neste artigo pretendo demonstrar onde está a falha.

Comecemos pelo próprio conceito de vegetarianismo. Não me venham com chorumelas, “veganismo” é apenas um termo fresco para diferenciar um vegetarianismo radical do vegetarianismo moderado. E nem sequer houve uma guerra civil para separar os dois. Nenhum vegetariano que eu conheça diz que fez sua escolha de dieta baseado em sua preferência ou apenas porque acha mais saudável. Existe um certo grau de messianismo nos vegetarianos: eles parecem achar que estão salvando o mundo, que estão mudando a humanidade rumo a uma utopia, ou sei lá o que. Mesmo quando alguns de seus argumentos fazem sentido (realmente comer carne não faz lá muito bem, segundo certos estudos), eles conseguem achar um jeito de fazer com que se tornem um verdadeiro chamado às armas. Não deveria ser assim, porque quando você cria um proselitismo ideológico em torno de uma causa, você começa a afastar aqueles que discordam de sua causa. No caso do vegetarianismo, o que fica parecendo é que ninguém, em sã consciência, se tornaria vegetariano apenas por uma questão de gosto, preferência ou escolha: você precisa inculcar no sujeito nada menos que um sentimento de culpa pelo futuro da humanidade. Ou então compartilhar com ele a sua paranoia de que todos os animais pensam e sentem como nós e que comer uma vaca é mais ou menos a mesma coisa que desossar e assar uma coleguinha de escola de sua filha. Quando você parte para esses apelos às consequências e para essa argumentação emocional, é sinal de que você já está cagando e andando para a racionalidade, e as suas opiniões passaram ao terreno da religião. E religião não se discute.

Detectar um imperativo moral a unir ateísmo e vegetarianismo é só uma outra forma de implorar por atenção. Sendo, inclusive, uma forma bastante rasteira de fazê-lo, visto que apela justamente aos sentimentos confusos de rejeição e de alienação de que padecem os ateus, especialmente os mais jovens, em uma sociedade que lhes nega exatamente a moralidade que o vegetarianismo se propõe a restituir-lhes. Um ateu vegetariano é alguém que quer legitimar sua descrença perante uma sociedade que exige crenças, ser vegetariano dá ao neófito uma sensação de pertencimento: ele está fazendo “alguma coisa” pela salvação da humanidade. E isto é quase como estar na plataforma portando um sabre de lua diante de Darth Vader.

Mas tudo isso é uma grande bobagem. Ele não está em uma luta épica pelo futuro, mas em um complicado processo de afirmação da própria personalidade, em um contexto social no qual esta afirmação frequentemente se faz por meio da alienação religiosa, no conformismo cristão. O medo à maioridade mental faz com que as pessoas se apeguem a muletas, por isso se aferram a religiões, mesmo quando elas são questionadas com sucesso, por isso aceitam ideologias que pregam algum tipo de transcendência. É mais fácil tirar o homem de dentro da igreja do que tirar a igreja de dentro do homem.

Ateísmo e vegetarianismo não estão de forma alguma interligados por qualquer tipo de laço causal ou imperativo moral. Ateísmo é apenas a descrença (ampla ou específica) em divindades (tal como definidas por uma cultura) e vegetarianismo é apenas uma dieta restritiva, que pode ser adotada pelas mais variadas razões. Originalmente o era por motivos religiosos, mas desde o século XIX surgiram movimentos laicos que a propuseram não mais pelos seus benefícios “espirituais”, mas porque supostamente seria mais saudável ou socialmente mais justa. Mesmo nesta época, porém, a maioria dos vegetarianos pertencia a alguma religião: um católico, anglicano ou presbiteriano não saía de sua igreja por tornar-se vegetariano porque não havia imperativo ético e nem conteúdo teológico em deixar de comer carne. Tanto quanto não poderia haver na preferência por vinho em vez de cerveja, ou no hábito de barbear-se com navalha ou com aparelho. Essa coisa de dar um sentido maior ao vegetarianismo começou nos anos 1960, com a influência hindu sobre o movimento hippie. Quando as preocupações ecológicas afloraram, nos anos 1970, os hindus embarcaram no discurso da preocupação com o futuro, dizendo que sua religião era melhor porque sempre propusera o vegetarianismo. Esse foi o nascimento do caldo de cultura new age, no qual está inserido o vegetarianismo que se popularizou no Ocidente nas últimas décadas.

A ideia de associar o movimento ateu com essa corrente de pensamento se popularizou no Brasil graças ao Daniel Sottomaior. Há várias versões para suas motivações, mas eu não quero aventar nenhuma, para evitar calúnias e difamações. Mesmo porque, versões na internet são só boatos. O que sei foi que Daniel criou muito sectarismo no “movimento ateu” por causa desta associação, que me parece ser peculiar ao movimento ateísta brasileiro (mas me iluminem se me engano). De lá para cá o próprio Sottomaior mudou de ideia, mas o conceito ficou “no ar” e tem recorrido. Agora mesmo o Bule Voador está começando a assimilar o discurso vegetariano, inclusive adotando parte de sua terminologia, como “antropocentrismo” e “especismo”. Conceitos esses que estão fortemente carregados da doutrina hinduísta do “karma” (segundo a qual não devemos devorar nenhum animal porque humanos podem reencarnar neles, o que faz com que a morte de um animal equivalha a um assassinato). A obsessão em demonstrar a senciência dos animais faz parte desta preocupação cármica que, subitamente, parece estar se apossando de grande parte de nossos jovens padawans ateus.

Espero que este artigo tenha contribuído para esclarecer um pouco o assunto, e que ajude a desmontar o sectarismo que se cria quando um grupo, mesmo se intitulando cético, arroga para si  o monopólio da verdade.