domingo, 4 de março de 2012

Ceticismo Enxovalhado Pelo Preconceito

O uso do termo “cético” tem sido muito banalizado nos últimos tempos. Não me admira que haja quem reaja com horror diante das opiniões expressar por algumas pessoas que empregam o termo. Sou uma de tais pessoas, desde que detectei que o “movimento ateu” estava sendo inflado por um número expressivo de participantes que só poderiam ser descritos em termos depreciativos, pois desonram as categorias em que pretendem inscrever-se. 

Pode parecer exagerado dizer tal coisa, mas há pessoas assim. Desonram o ceticismo quando aderem de forma ideológica a tradições ou opiniões, muitas vezes rasas e preconceituosas. Desonram a filosofia quando empregam falácias para defender suas opiniões e rejeitam correções. Desonram a esquerda quando se transformam em microditadores de seus espaços virtuais. Desonram o ateísmo quando reduzem-no à “crença na inexistência” de um conceito que sequer pôde ser definido de maneira coerente pelos seus proponentes. Desonram o agnosticismo quando o empregam como se fosse a concessão do benefício da dúvida quanto à existência de uma divindade curiosamente parecida com o Velho Barbudo do Céu. Não basta, não basta jamais, dizer-se algo. É preciso ser.

Todos os movimentos sofrem com essa crise de identidade quando começam a ganhar corpo. Há uma diferença importante entre crescer, inflar e inchar. Por isso não é de estranhar que o  “movimento ateu” se veja diante de uma multiplicação de blogues e sites de associações, clubes e conciliábulos diversos. Não me parece que haja no país bastante gente capaz de produzir conteúdo de qualidade, na frequência e no volume suficiente para alimentar tanto veículo faminto.

Imagem: Álbum de Justin McWilliams

A blogosfera ateísta está se tornando mais ruidosa, mais radical, mais intolerante e menos interessante. Ainda mais difícil se torna a situação quando notamos que as vozes que tentam produzir um conteúdo de qualidade, ou pelo menos matizado e menos raso, acabam sendo vítimas de “expurgos” ideológicos que lembram a fase mais vergonhosa dos totalitarismos. Aquela fase na qual os ideólogos que pensavam no poder como uma ferramenta de transformação são postos na cadeia, ou em covas, e os “pragmáticos” tomam o controle da revolução. Pragmático é, essencialmente, um sujeito que não pensa em objetivos, a não ser como concessões necessárias para justificar o seu poder.

Certas coisas me espantam. Mas poucas coisas me espantam mais quanto um cético preconceituoso. São coisas que absolutamente não se casam. Como pode alguém que se diz “cético” aderir acriticamente a preconceitos, especialmente, note bem, especialmente, a preconceitos que têm sua origem na religião?

O “cético” esperneará dizendo que não é um preconceito, mas uma opinião refletida, que, apenas casualmente, confere com oito séculos de discriminação e bullying contra certa minoria. O “cético” ignorante não conhece as raízes dos próprios preconceitos — e é por isso que não consegue entendê-los como tal. Os “pragmáticos” não ligam para isso: o importante é engrossar as fileiras, é fazer barulho, é marcar presença. Então aceitam o tacape do bárbaro porque ele intimida mais que a palavra do professor. O “movimento ateu” brasileiro se “monoteiza” (em breve publicarei aqui um estudo sobre isso) e migra à direita. Os “pragmáticos” rejeitam a utopia revolucionária: não vale a pena lutar por algo difícil ou impossível, é melhor perfumar a merda que temos.