quarta-feira, 25 de abril de 2012

Sobre a Necessidade do Isolamento

O ser humano é gregário por natureza. Desde Aristóteles (que talvez não tenha sido o autor do dito) circula a noção de que o homem é um «animal político». A animalidade (ou seja, a naturalidade) de nossa inclinação política nos faz supor que é «bom» que estejamos sempre unidos a alguma coisa: classe social, partido, religião, torcida ou fã clube. Hoje, porém, dei-me conta da relevância de ser solitário, de não estar formalmente ligado a nenhum grupo ideológico.

Grupos ideológicos são prisões mentais: eles nos obrigam a entrar em conformidade com paradigmas externos, que podem não ser mais do que a pressão da maioria. Não é nenhuma surpresa que os partidos políticos se degradem com o correr do tempo, perdendo seus ideais de juventude e degenerando em meros instrumentos de poder. Quando você optar por filiar-se a um grupo por ideologia, está voluntariamente renunciando a ter ideias próprias sobre os temas controversos ou, de outra forma, terá de conviver com uma forte dialética na qual a pressão da maioria acabará empurrando suas considerações iniciais para posições conciliatórias.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A Sacralização da Tortura

Atribuir ao sofrimento em si mesmo um valor moral é um dos pilares da religião cristã, assentada firmemente na manipulação dos sentimentos de culpa que afligem a todos nós. Culpa essa que é predominantemente fabricada pelas crenças e superstições instiladas pela própria moral cristã, desconectada das necessidades reais da humanidade, como bem observou Nietzsche:

No Cristianismo, nem a moral nem a religião estão em contato com um ponto sequer da realidade. Só causas imaginárias ... ; só efeitos imaginários ... Uma relação entre seres imaginários... uma ciência natural imaginária ...; uma psicologia imaginária ...; uma teologia imaginária... Este mundo das ficções puras distingue-se, com muita desvantagem para si, do mundo dos sonhos, em que este reflete a realidade, ao passo em que o outro não mais faz do que falseá-la, desprezá-la e negá-la. Depois de ter sido inventado o conceito «natureza» como oposição ao conceito «Deus», «natural» torna-se o equivalente a «desprezível», todo esse mundo de ficções tem o seu fundamento no ódio contra o natural (a realidade!).

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mais Radicais ou Mais Violentos?

Quando eu era adolescente a gíria da moda era «radical». Promovida pela poderosa Rede Globo de Televisão através de programas como o «Armação Ilimitada», esta gíria contaminou-nos de tal forma que teve seu sentido original pervertido. Em vez de algo ligado à base, à raiz, tornou-se algo arriscado, temerário. Terá sido intencional? Terá havido um objetivo de fazer uma confusão entre ideologias «radicais» e esportes «radicais» enfatizando em ambos o perigo? Em se tratando de nossos canais de televisão, nada é por acaso.

sábado, 7 de abril de 2012

Ceticismo em Crise: A Infinita Querela Entre as Ciências Formais, Naturais e Sociais

É um tanto difícil abordar este tema sem parecer que estou puxando a brasa para a minha própria sardinha porque, de fato, estou. Acredito que é necessário admitir isso honestamente desde o princípio para evitar que os leitores tenham uma compreensão errada do que virá a seguir. Infelizmente, esta honestidade de declarar explicitamente de onde vem e para onde vai está ausente na maior parte dos debates sobre ciência que acontecem na internet. Ali o que se vê é a tentativa de desqualificar o lado oposto de qualquer maneira e reivindicar para si o reinado da cocada preta.

As Ciências Sociais, sendo «irmãs mais jovens» da família científica, ainda não levadas tão a sério pelas demais ciências, já melhor estabelecidas na tradição. Além disso, pelo fato de terem o «poder» de construir ou explodir coisas e de matar ou salvar gente, as demais ciências parecem ter uma «superioridade evidente», que os seus adeptos tentam cristalizar desenvolvendo definições de ciência que favoreçam justamente essa posição de superioridade. Essa crendice serve de base para a desqualificação das Ciências Sociais, ainda mais porque ninguém explode nem constrói coisas com História, Psicologia, Sociologia, Antropologia, Linguística etc. Ainda há muita gente que acredita no mito da «objetividade» das Ciências Formais e na eficácia absoluta do «método científico», como o forista que afirmou: O método científico existe justamente para eliminar todo resquício de subjetividade.