quinta-feira, 26 de julho de 2012

Mais ou Menos Democracia

Parece que a democracia brasileira está em perigo. Não porque haja algum conluio de mili­tares pensando em depor o governo pela força das armas, no melhor estilo pé na porta e bota em cima da mesa (como na famosa foto de Pinochet abaixo reproduzida, e que se tor­nou uma imagem icônica do típico tirano militar latinoamericano), mas sim porque o eleitor parece cada vez ter menos escolhas — e reduzir as escolhas é uma das maneiras de se impedir a manifestação da vontade popular (não a mais evidente, mas talvez a mais eficaz).

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Uma Mentira, Se Mil Vezes Repetida

Entre a esquerda e a direita, existem diferenças tão essenciais que nunca é demais repetir. A esquerda não se envergonha de ser a oposição a «tudo que está aí» e sabe muito bem que há necessidade de reformas profundas na sociedade, na cultura e na economia. Enquanto isso a direita procura justamente negar o diagnóstico (luta de classes) para negar os mecanismos (revolução, reforma) a fim de preservar o status quo a todo custo. Existe, porém, um tipo de direita que vai ainda mais longe: não contente em preservar o que aí está, procura fazer regredir aquilo que já mudou.

Nós, que somos de esquerda, chamamos aos direitistas do primeiro tipo «conservadores» e do segundo, «reacionários».  Um reacionário é um saudosista dos «bons tempos» do capitalismo, aquela época heróica em que os homens eram homens, as garantias trabalhistas não existiam e lugar de mulher era na cozinha.

domingo, 15 de julho de 2012

Pedras Ateias ou «Será o Ateísmo um Aprendizado?»

Este artigo vai dedicado a três pessoas em especial. Primeiramente ao Eli Vieira e ao Gregory Gaboardi, da Liga Humanista Secular do Brasil, com quem certa vez travei um interessante debate sobre «pedras ateias» (mais adianta explicarei o conceito) e a Neli Espanhol, amiga dos tempos de Orkut que fez um comentário no mesmo sentido, na postagem do Google Plus referente ao artigo imediatamente anterior a este.

A motivação deste artigo está em uma frase solta contida naquele texto: a afirmativa de que «ninguém nasce ateu». Para Neli, todo indivíduo ao nascer, estando isento da crença em divindades, seria ateu. Para Eli e Gregory, no referido debate travado nos comentários do blog do Paulopes, não faz sentido imaginar o ateísmo como algo inato, pois então teríamos que admitir que até pedras, que nunca pensam sobre Deus (uma vez que nunca pensam) teriam de ser atéias.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Grande Conflito do «Movimento Ateu»

Nunca se discutiu tão abertamente o ateísmo no Brasil quanto se há discutido em anos recentes. Durante a maior parte da nossa história, o ateísmo foi anátema ou visto como coisa de “intelectuais”. Há grande confusão entre o simbolismo cristão, especialmente católico, e as criações culturais específicas de nosso povo: muitas de nossas “festas populares” nada mais são que ritos católicos medievais que sobrevivem em nossos rincões. Some-se a isso o processo lento de aculturação pelo qual passamos (só tivemos universidades já no século XX, enquanto no resto da América Latina elas existem desde os séculos XVI ou XVII) e fixa-se a ideia de que ateísmo é uma novidade, uma moda estrangeira ou coisa de loucos, como sugere a “sabedoria popular” (essa que elegeu Tiririca o deputado mais votado do Brasil).

O próprio conceito de “liderança” ideológica está contaminado pela aspiração de monopólio do conhecimento e, concomitante a ele, de tomada de decisões. Infelizmente isto se reproduz no movimento ateu. Aqueles que se assentam nas posições superiores são os que detêm o controle de meios de difusão (blogues, sites) ou de produção de conteúdo (polemistas, vloggers, debatedores) e dos demais se espera basicamente que sejam comentaristas cordatos, sempre prontos a aplaudir, nunca a criticar. Eventuais manifestações de discordância resultam em exclusões formais ou informais (meramente passar a ignorar o que é produzido pela dissidência). A linha de separação entre as duas categorias está na habilidade para manejar uma linguagem razoavelmente rebuscada, o conhecimento de termos de lógica argumentativa (como “falácia”) e o acesso direto a instrumentos eficazes de difusão do próprio discurso.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Mas, e se Ele Existe?

Raros ateus não passaram pelo momento de tal dúvida. Nada mais natural, visto que o ateísmo não é natural. Como ninguém nasce ateu, o estado atual de ateísmo é fruto de coisas que vivemos, pensamos e sentimos. E não faz muita diferença se você é ateu, agnóstico ou algum outro tipo de água morna. Na verdade, seria sábio supor que os próprios religiosos não pensam muito como é que as coisas seriam de fato no caso desse deus que para quem as suas orações se dirigem existisse mesmo. Desta forma, só posso pensar que este exercício mental é muito relevante, para mim e para quem mais leia, seja qual for o time para que torça.

Como seria, então, contemplar a existência de Deus, nos termos normalmente atribuídos a Ele pelos cristãos? Como nos veríamos diante da realidade se tal ser existisse?

terça-feira, 3 de julho de 2012

Democracia Paraguaia e Jeitinho Brasileiro para Vender um Golpe como Salvação da Pátria

A mídia brasileira tem tradição em aplaudir golpes de estado, como a «Redentora» de 1964, muito mais interessada em impedir a vitória certa de Juscelino em 1965 do que algum módico sucesso de João Goulart em fazer a reforma agrária. Antes disso movera uma barragem de mentiras, verdades e distorções contra Getúlio Vargas. E de lá para cá não cessou de transitar no lado direito da força, como em cabuloso editorial por meio do qual as Organizações Globo enalteciam a ditadura e se negavam a cooperar com o processo democrático. E nem vou falar de episódios mais recentes (e por isso menos claros, devido ao menor distanciamento entre este que vos escreve e os fatídicos fatos).

Referida tradição manifestou-se outra vez no recente golpe que a direita paraguaia desferiu contra o presidente Fernando Lugo utilizando para isso o «consenso» de um congresso divorciado do voto popular que empossara o chefe do executivo. Que apenas aplaudissem o golpe seria já um fenômeno inaceitável, considerando que a democracia é, para os estados modernos, um valor em si, mas os próceres desta direita sem freios foram além: pretenderam legitimar a deposição do legítimo chefe de estado guarani com o chocho argumento de que o processo teria sido «legal» e, portanto, não se constituiria em um golpe.

domingo, 1 de julho de 2012

Sobre a Obsolescência de Alguns Conceitos

Podem me chamar de antiquado, mas eu confesso que já estou há tanto tempo acompanhando as idas e vindas do «movimento ateu» na internet que já estou começando a ficar premonitório: percebo no ar coisas que muita gente inocente ignora — e, como uma Cassandra cibernética, sou devidamente ignorado quando falo do que prevejo. Uma das coisas que estou cheirando nos ventos da Grande Rede (perífrase cafona que é usada quase exclusivamente por gente da Rede Globo) é o que parece ser uma estratégia deliberada para sufocar a voz das reivindicações populares. Não sei quem estaria por detrás disso, mas vejo que muita gente inteligente, que deveria ter a capacidade de enxergar os fios dos marionetes, não apenas não os vê como ainda se deixa guiar pelas sementes de ódio plantadas por aí. No fim das contas o que vale é convencer a todos de que o debate entre esquerda e direita está obsoleto, que socialismo é opressão, liberalismo econômico é liberdade, que reivindicações de direitos são injustas e que empatia é patrulha ideológica. Neste texto (que vai ser imenso, aviso aos analfabetos funcionais que preferem tweets) pretendo explicar como enxergo isso e de que forma acredito que posso demonstrar a falácia desses argumentos.