segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

As Redes Antissociais

Cada dia que passa me trombo com novas evidências de que as redes sociais têm, no fundo, um modus operandi diferente do ideal que é propalado pelos seus entusiastas. Com todos os seus defeitos, a Deep Web me parece ser o espaço realmente revolucionário, onde a promessa de liberdade anárquica da rede se cumpre. Redes sociais são cercadinhos mentais, que impedem o desenvolvimento do espírito crítico.

Não sei até que ponto isto é defeito colateral ou uma característica designada. As redes sociais, afinal, não foram criadas com finalidade política, mas meramente como uma espécie de correio galante. A única delas que ofereceu ferramentas realmente eficazes para o contraponto de ideias foi o Orkut, mas ele já não faz parte dos planos de ninguém.

Nas demais redes sociais, como o Facebook, a Diaspora, o Plus e outras, o que temos é uma organização que dificulta a localização e o compartilhamento de conteúdo — além de também dificultar a identificação e a contextualização de comentários. Os fóruns do Orkut não serão igualados porque o que se quer das redes sociais não é aquela interface favorável a discussões. Todas as redes atualmente em uso tornam cada usuário em ditador de seus perfis, redes e grupos. Respostas são ocultadas à medida em que novas respostas aparecem, de forma que a proposta inicial sempre está em evidência, mesmo tendo sido rebatida. E todos podem facilmente isolar-se de críticas deletando comentários desabonadores ou contestações eficientes.

A médio e longo prazo isso faz com que as redes sociais, em vez de ágoras ruidosas onde os diferentes pensamentos se contrapõem e pessoas de todas as opiniões argumentam entre si, acabem como feudos de opiniões não contestadas. Os usuários podem permanecer longos períodos de tempo lendo apenas aquilo que lhes interessa, sem nunca se chocarem frontalmente com o contradito. Não importa que uma opinião se embase em preconceitos e ignorância, controlando a capacidade alheia de questionar os preconceitos e de informar os ignorantes, cria-se a impressão de que não existe resposta para aquilo que até as pedras estariam respondendo. E claro, isso fanatiza e radicaliza as opiniões, em ambos os extremos do espectro político.

Hoje tive um exemplo de como funciona isso. Um amigo meu publicou um artigo insano sobre o bloqueio econômico americano a Cuba com uma conclusão imensamente inepta: de que Cuba usa o bloqueio para ocultar sua deficiência econômica crônica, causada pelas contradições internas do socialismo, e que o bloqueio não é a causa das agruras do povo cubano porque os EUA não são os únicos fornecedores dos produtos que faltam na ilha.

O nível de primitivismo, de ignorância e de falta de inteligência nesta proposição é tão grande que é até difícil ser educado em uma resposta. Mesmo porque, quando você questiona um idiota ele sempre reage mal, porque qualquer questionamento válido expõe que ele é um idiota.

Todas estas proposições já foram suficientemente desmontadas por gente como Salim Lamrani, em sua famosa entrevista com Yoani Sánchez, mas o controle do contraponto, possibilitado pelas redes sociais, faz com que ideias estúpidas continuem sendo difundidas, simplesmente porque quem lê esses relinchos não encontra reações.

Para que o meu leitor entenda o tamanho da bestagem que foi dita pelo meu «amigo» facebookiano, vou expor a coisa em argumentos simples, que sequer necessitam de pesquisa, apenas de lógica elementar. Infelizmente esses argumentos não serão lidos por direitistas ou por apoiadores do bloqueio. Essa gente acredita que eu sou um idiota porque penso diferente, e não virão aqui ler o meu artigo, diferente de mim, que frequentemente leio artigos deles.

Primeiro o, ehem, «argumento» ignora que o bloqueio econômico não impede apenas a importação do que falta em Cuba, mas também a exportação do que lá se produz. Sendo os EUA o maior mercado consumidor do mundo, e estando tão próximo, logicamente o bloqueio nega a Cuba um mercado fácil e próximo para os seus produtos. Existe aí um segundo fator importante, especialmente durante a Guerra Fria: a economia turística cubana, que era toda focada em turistas americanos, praticamente deixou de existir porque os novos parceiros econômicos socialistas não faziam turismo. Somente a perda desta indústria já trouxe um prejuízo imenso à ilha. Quando os cubanos deram um jeito de substituir os turistas americanos por outros, os americanos deram jeito de criar novos boicotes e bloqueios.

Segundo que, se o bloqueio fosse ineficaz, como dizem os direitistas, se ele não causasse as dificuldades econômicas de Cuba,  não haveria necessidade de mantê-lo. Se ele apenas fornecesse ao governo cubano uma desculpa para sua incompetência, como dizem, então os EUA estariam de fato ajudando a manter no poder a ditadura dos Castro. Essa parte do argumento é mais controversa porque, de fato, bloqueios são pouco eficazes para derrubar regimes. As sanções econômicas contra a África do Sul, o Iraque e, mais recentemente, o Irã, não deram grandes resultados. As odiosas ditaduras dos dois primeiros desses países acabaram, respectivamente, pela exaustão de sua capacidade militar e pela invasão americana. Os bloqueios só serviram para criar dificuldades relativamente pequenas, no caso sul africano, ou para matar crianças de fome e doenças evitáveis, no caso iraquiano. Então eu acredito que o bloqueio funcione para causar o caos, falhe em remover o regime, mas seja mantido pelos EUA por uma questão de mero orgulho.

Mas a escala do bloqueio é também controversa. Segundo o meu «amigo» facebookiano, se os revolucionários americanos odeiam tanto os ianques, não deveriam procurar comércio com eles, mas com outros países. Esta frase é, por si, idiota. Acredito que ninguém em Cuba odeie «os americanos». Alguns certamente odeiam o imperialismo americano, mas odiar as pessoas nascidas no Estados Unidos é outra coisa. Ainda que o governo de Cuba tenha suas diferenças com o governo dos Estados Unidos. Então seria possível algum nível de comércio entre os dois países, empresas americanas vendendo para pessoas cubanas, pessoas americanas comprando de empresas cubanas, pessoas de ambos os lados visitando turisticamente o outro etc. Nada disso impediria a pureza ideologica de ambos os regimes. Não custa lembrar que os EUA tinham comércio com as nações socialistas durante a guerra fria.

Mesmo supondo, porém, que o ódio aos «americanos» devesse se traduzir num boicote recíproco e que, por pureza ideológica, Cuba devesse procurar comprar e vender de outros governos e povos, ainda assim o bloqueio é monstruoso porque desde a Lei Helms-Buron, de 1992, qualquer empresa que venda a Cuba pode ser proibida de vender aos EUA, na prática obrigando-as a optar entre o mercado americano e o cubano. Isso não inclui só empresas americanas, ou filiais de multinacionais americanas, mas até empresas estrangeiras. É verdade que esta lei tem sido implementada de forma seletiva (não me consta que os EUA tenham deixado de negociar com a PDVSA ou  com a PEMEX), mas ela segue como um fantasma para quem pretenda vender a Cuba.

Todos estes dados aqui transcritos foram informados ao meu amigo, com a recomendação de que pesquisasse sobre o assunto e não repassasse informações erradas. O efeito de minha intervenção foi ver meus comentários excluídos, logo depois fui verbalmente agredido, na base do «este é o meu perfil e eu posto o que quero, vá defender a ditadura cubana noutro chiqueiro» e não me restou alternativa senão excluir a amizade. Porque uma pessoa que quer me dizer coisas erradas, mas não quer ouvir minha resposta, é alguém que eu não quero ouvir mais.

E este desfecho me abriu os olhos para o modo como funcionam estas redes sociais, como contribuem para reforçar os preconceitos e a desinformação. Os leitores do meu «amigo» que não viram minhas intervenções antes de serem apagadas terão a impressão de que ninguém consegue contestar os «dados» e as conclusões dele, apesar de serem fáceis de desmontar. Mesmo alguns que viram, como já estão «vacinados» contra essa «doença esquerdista», devem ter quebrado paus no ouvido e seguido com a cantilena.

E no fim das contas, por um medida de honestidade, preciso admitir que eu mesmo, às vezes, resvalo nesse tipo de atitude. O que me leva a concluir que todos os lados estão sendo infantilizados pelas redes sociais, que não funcionam como ágoras, mas como clubinhos. Que não estimulam o livre debate de ideias, mas as miúdas conspirações isoladas entre si.