terça-feira, 12 de março de 2013

A Moda É Ser Idiota

“Idiota” era como os gregos chamavam aqueles cidadãos que cuidavam exclusivamente de seus negócios pessoais e não participavam da vida política. Somente muito mais tarde a palavra ganhou um sentido mais negativo. Fazia parte do conjunto de crenças comum a todos os gregos que cada cidadão deveria ser responsável pelo governo de sua cidade. De tal forma se valorizava isso que a participação em certos órgãos governamentais, como o tribunal do Areópago, em Atenas, ou a assembléia dos éforos, em Esparta, era, em certa época, sorteada entre todos os homens aptos. Esse era o conceito de “liberdade” defendido pelos antigos filósofos: livre era o homem que era dono de si, não possuía senhores. A liberdade era contraposta à escravidão.

Quando o pensamento grego foi revalorizado, a partir da Renascença, o conceito de liberdade dos gregos pareceu anacrônico e inadequado. Era impossível governar países extensos com base em uma democracia direta, da qual todos os cidadãos participassem por sorteio, mesmo que fossem considerados cidadãos apenas os nobres. Não obstante, certos estados menores, como a Holanda e as cidades livres hanseáticas, tiveram uma forma de governo razoavelmente parecida, na qual todos os “homens bons” tinham sua voz ouvida.

Existe uma nobreza nesta definição de liberdade, nobreza que fascinou aos filósofos iluministas e também a Nietzsche. A liberdade dos antigos não era uma liberdade egoísta, não era uma busca hedonista. O homem não era livre para agradar a si mesmo, mas para fazer o bem à comunidade. E havia uma identificação do cidadão com a cidade. A raiz dessa identificação está na percepção da política como uma extensão de si. O estado (pólis) não era visto como um ente estranho, mas como uma espécie de família estendida, à qual se pertence, mesmo nos momentos em que algum dos membros faz algo de que discordamos. Desta forma, sempre que um indivíduo procurava impor sua opinião através das armas, do dinheiro ou da oratória, a cidade lhe reservava a pena do ostracismo (exílio), com o objetivo de reduzir-lhe ainda mais a capacidade de convencer aos outros. Nunca, porém, ninguém foi forçado a deixar a cidade: era o cidadão que percebia, no voto do ostracismo, a rejeição da cidade contra si e contra tudo o que ele representava. Exilar-se era a única opção. Mas reconciliar-se era o único objetivo. Somente os escravos não almejavam retornar à sua cidade original.

No embate das forças ideológicas posteriormente à revolução francesa, o tipo de liberdade cidadã que os gregos compreendiam foi abraçado pelos socialistas. Não por acaso escolheram essa denominação para si. Divergindo dos gregos apenas na noção nova, francesa, de que todo filho da nação é um cidadão seu. A essência do pensamento altruísta, que logo se confundiu com a esquerda, e parcialmente com o socialismo, é a de que cada indivíduo pertence a um conjunto, a sociedade, e não lhe é lícito fazer nada que cause dano à sociedade. Diferentemente dos socialistas, os diversos tipos de ideologias individualistas sempre preconizaram o direito individual de fazer mesmo aquilo que prejudicasse à sociedade. As posições centristas admitem que o indivíduo possa moderadamente causar dano à sociedade, conquanto sempre  menor do que dispêndio que a sociedade precisaria fazer para impedi-lo. Se, como disse Oscar Wilde, a sociedade embrutece mais com a reiteração de castigos do que com a recorrência dos delitos, é mais sábio tolerar certa ordem de transgressões, a fim de diminuir o embrutecimento coletivo.

Nos últimos anos e meses começou a ganhar popularidade aqui no Brasil uma corrente de pensamento de extrema direita e de extremo individualismo chamada libertarianismo (alvo preferencial deste blogue, daí o título), que defende exatamente o oposto do pensamento atruísta. Supostamente baseada em Nietzsche (na verdade derivada de um pastiche mal construído de alguns aspectos de sua filosofia, por intermédio dos romances de Ayn Rand), essa ideologia propõe que ninguém deve jamais se preocupar com o próximo, nem de forma alguma unir-se a quem quer que seja em nome de objetivos comuns, pois a “virtude” estaria em enfrentar as consequências e vicissitudes da vida de forma “livre”. Um exemplo de texto difundido pelos libertários na internet é o citado a seguir:
  1. Quando uma pessoa de direita não gosta de armas, não as compra. Quando uma pessoa de esquerda não gosta das armas, proíbe que você as possua.
  2. Quando uma pessoa de direita é vegetariana, não come carne. Quando uma pessoa de esquerda é vegetariana, faz campanha contra os produtos à base de proteínas animais.
  3. Quando uma pessoa de direita conhece uma pessoa de orientação sexual diferente, vive tranquilamente a sua vida. Quando uma pessoa de esquerda é homossexual, faz um movimento com alarde para que todos também se tornem homossexuais e os respeitem.
  4. Quando uma pessoa de direita é prejudicada no trabalho, reflete sobre a forma de sair dessa situação e age em conformidade. Quando uma pessoa de esquerda é prejudicada no trabalho, levanta uma queixa contra a discriminação de que foi alvo e vai à justiça do trabalho pedir indenização por dano moral (e o pior: ganha!).
  5. Quando uma pessoa de direita não gosta de um debate transmitido pela televisão, desliga a televisão ou muda de canal. Quando uma pessoa de esquerda não gosta de um debate transmitido pela televisão, quer entrar na justiça contra os sacanas que dizem essas sandices. E até uma pequena queixa por difamação será bem-vinda.
  6. Quando uma pessoa de direita é ateísta, não vai à igreja, nem à sinagoga e nem à mesquita. Quando uma pessoa de esquerda é ateísta, quer que nenhuma alusão a deus ou a uma religião seja feita na esfera pública, exceto para o islã (com medo de retaliações provavelmente).
  7. Quando uma pessoa de direita, mesmo sem dinheiro disponível, tem necessidade de cuidados médicos, vai ver o seu médico e, a seguir, compra os medicamentos receitados. Quando uma pessoa de esquerda tem necessidade de cuidados médicos, recorre à solidariedade nacional ou ao sírio libanês para tratar.
  8. Quando a economia vai mal, a pessoa de direita diz que é necessário arregaçar as mangas e trabalhar mais. Quando a economia vai mal, a pessoa de esquerda diz que os sacanas dos empresários, proprietários etc… são os responsáveis e punem o país.
  9. Teste final: quando uma pessoa de direita lê esse texto, posta argumentos lógicos. Quando uma pessoa de esquerda lê esse teste, fica puta da vida e quer xingar, além de querer processar e prender quem escreveu…
Como toda comparação estereotipada, esta também é falsa. Mas ele ser falso não me espanta nem me comove. Estranho é que muitas pessoas inteligentes — como +Vides Júnior+Saulo Cesar+Mário César de Araújo e +Francisco Quiumento
— e outras nem tanto, como o +Dâniel Fraga, o difundam sem pensar, aderindo automática e acriticamente a essas afirmações redutoras como se fossem um mantra.

Esse texto nada mais é do que uma mentira. Nem pessoas de direita e nem pessoas de esquerda são assim. Existe um tipo de pessoa de direita que diz/acha que é assim e que tenta impor essa definição de direita como uma universalização do credo e da práxis “direitista”. Esse é o primeiro erro porque, em tese, ninguém que seja direitista se diz ser, porque faz parte da essência do pensamento não esquerdista a negação da existência de luta de classes e da legitimidade da esquerda enquanto teoria política. O pensamento de esquerda é só um desvio, a luta de classes é uma ficção. Mas o texto, obviamente, reivindica uma suposta neutralidade, ao usar os termos “esquerda” e “direita” em terceira pessoa (“uma pessoa”) o autor procura sugerir que está fazendo um exame distanciado das duas formas de pensamento. Essa é uma técnica argumentativa bastante eficaz, porque as pessoas rejeitam pensamentos que honestamente se assumem como parciais: todos querem opiniões isentas, mas que coincidam com determinada forma de pensar.

São muitas as pegadinhas distribuídas pelo texto, e a simples identificação de cada uma delas deveria envergonhar quem o difunde (mas tenho a desiludida certeza de que ninguém se retratará, afinal, compartilhar um texto não é endossá-lo, ou é?).

O primeiro parágrafo faz uma comparação assimétrica entre uma ação individual (“não comprar”) e uma ação que nenhum indivíduo isoladamente teria poder para praticar (“proibir”). O terceiro, pior ainda, compara pontos de vista diferentes sobre uma mesma situação. A pessoa de direita “conhece alguém de orientação homossexual , a pessoa de esquerda “é homossexual”. Além do maldoso subtexto de que o esquerdista é veado, ainda temos uma comparação que não faz sentido, pois é perfeitamente aceitável que tenhamos reações diferentes quando estamos envolvidos. Ou seja, possivelmente uma pessoa que viveria tranquilamente a vida após conhecer um homossexual se sentiria compelida a fazer campanha pelos direitos homossexuais caso se descobrisse homoafetiva, simplesmente porque a percepção da cena muda quando você deixa de ser plateia e passa a ser ator.

Em comum, os sete primeiros parágrafos têm uma característica: a essência da “pessoa de direita” é a passividade diante dos fatos que encontra, caracterizando-se por “não fazer”, “continuar fazendo” ou “apenas refletir”. Não há uma só recomendação de um curso de ação diante dos desafios. O direitista “não compra” armas, não come carne, vive tranquilamente, reflete sobre a injustiça que sofreu,  muda de canal, não vai ao templo/sinagoga/igreja/mesquita. Por outro lado, o esquerdista sempre toma atitudes, apresentadas como equivocadas: ele “proíbe” (sic) a compra de armas (ou procura proibir), faz campanha contra a carne, faz um movimento, presta uma queixa, entra na justiça etc. Independente do fato de que em certas situações é melhor agir e em outras, não, resulta óbvio da análise do texto que o direitista ideal é alguém que age o mínimo possível. Quando alguma ação é recomendada, trata-se de uma ação individual e inócua, como mudar o canal da televisão (o que equivale a enterrar a cabeça na areia e fingir que o problema não existe). Esta é a essência do conservadorismo: qualquer tentativa de melhorar o mundo vai é piorar, então é melhor aceitar tudo do jeito que está. O conservador mais radical difere do reacionário em um simples fato: ele admite o progresso, desde que não seja obra de reivindicações revolucionárias e seja lento.

O silêncio sobre a ação é mais eloquente no quarto parágrafo, quando  a pessoa de direita “reflete” sobre o seu infortúnio. Por um paradoxo inexplicável, mas compartilhável, esse indivíduo de direita não estará agindo “em conformidade” caso escolha usar a justiça para se defender. Como não acredito que o autor do texto esteja defendendo o uso direto da força (vingança), suponho que a inação seja a única forma de ação conforme, sob a ótica direitista.

Não é à toa que um filósofo bem menos burro do que eu classificou a história positivista (conservadora e direitista) como “uma sucessão de fatos sem conexão, ligados a símbolos inexplicáveis e pessoas sem personalidade, em que nada possui causas, nada gera consequências, todas as reviravoltas são completamente inesperadas e todos os acontecimentos, irrepetíveis e desprovidos de qualquer valor moral para o presente.” É uma crítica antiga, do tempo em que ainda se usava falar em “moral” em filosofia, mas segue válida. Na ótica desse direitista ideal, apresentado nesse texto, a única coisa a fazer diante dos obstáculos da realidade é omitir-se, ou então tomar uma atitude isolada. Fica a impressão de que até mesmo formação de quadrilha é uma atividade esquerdista.

Uma vez que o indivíduo não está autorizado a tomar qualquer atitude concreta diante dos fatos, resta-lhe aceitar os fatos, de forma inexplicável. Como se vê no sétimo parágrafo, onde o autor afirma direitista consulta um médico e compra os remédios até quando não possui o dinheiro disponível. Não consigo imaginar como tal seria possível, nem de que forma os médicos e as farmácias andam aceitando pagamento se você for direitista. A atitude do esquerdista pelo menos é coerente: se não tem dinheiro disponível, recorre à solidariedade nacional. Acredito que a chave do enigma esteja no fato de que o autor, provavelmente, não sabe o que é “não ter dinheiro disponível” para pagar uma consulta e comprar remédios.

O oitavo parágrafo é o mais curioso de todos, pois tenta colocar como antônimas duas atitudes que não são sequer incompatíveis. Propor-se a “arregaçar as mangas e trabalhar mais” é algo que qualquer pessoa que dependa de seu trabalho terá de fazer diante de uma crise (mas de nada adiantará esta determinação se não houver trabalho). Mas esta disposição não significa que a pessoa não deva ter sua própria opinião sobre as causas do problema. O mecânico, pode perfeitamente consertar o carro enquanto lhe pergunta se o defeito não foi causado por algum mau hábito seu ao volante, como acelerar o carro embreado. Obviamente o autor do texto acredita que especular sobre as causas dos problemas que afligem a todos (ou pelo menos a muitos) é algo que não se deve fazer.

Por fim, a “chave de ouro” do texto, uma espécie de salvaguarda do seu autor contra as críticas advindas de sua “obra”. Por causa dela eu acredito que seja inútil postar argumentos lógicos contra o texto, porque, na visão em preto e branco da mula que cagou esse pedaço de excremento (só estou xingando para ser fiel ao estereótipo), um argumento de esquerda não pode ser lógico. Mesmo eu tendo feito uma análise moderada e pretensamente lógica do seu conteúdo, minha discordância soará como um zurro, por um fenômeno de pareidolia auditiva, que faz com que ouçamos coisas parecidas com o que nos é familiar.  Mas posto-os mesmo assim, sabendo que pelo menos entre os padawans da esquerda eu serei lido (e também por algum direitista honesto entre os vinte ou trinta que deve haver).

Não consigo entender como pessoas  bem informadas apregoem um texto tão primário e fácil de demolir. Acima de tudo porque o individualismo idiota que ele prega (no sentido grego do termo) é prejudicial à sociedade como um todo. Em nome de uma pseudoliberdade essas pessoas pregam um sistema no qual cada um estaria sozinho e indefeso diante da opressão. Alguém já disse que grandes problemas demandam grandes soluções, e grandes homens. A via proposta pelo texto é que as soluções venham através de atitudes pequenas, de pequenos e isolados homens. É muito triste que pessoas inteligentes difundam isso, de forma tão acrítica, mesmo porque a ignorância dos exemplos da história não é uma desculpa. A ignorância nunca é uma desculpa. Especialmente porque alguns dos que difundem isso de tempo em tempo parecem ter os conhecimentos mínimos necessários para discernir a patranha. Mas parece que, depois que se estuda muito, e se duvida de tanto, começam as pessoas a buscar credos em que descansar seus neurônios. E nesse caso, se a ideologia está certa, o pacote inteiro vai de brinde, e está certo também.