domingo, 17 de março de 2013

Bem Aventurados os que Têm Fome e Sede de Justiça, Só que Não.

Apenas hoje tomei conhecimento de uma frase do Luiz Filipe Pondé, colunista da Folha de São Paulo, que procura igualar o sentimento antiamericano com uma inveja infantil do sucesso alheio. Minha primeira reação foi de incredulidade, porque um filósofo cometer uma falácia baixa como essa não é algo que se vê todo dia. Mas, como o Brasil é um lugar onde qualquer um com certa cultura perceptível pode ser chamado “filósofo” e qualquer um que ponha linhas curtas em sequência com rimas ocasionais ou figuras de linguagem pode ser chamado de “poeta”, eu acabei aceitando a validade da frase, o que me preparou para constatar que ela realmente foi escrita e publicada pelo jornal. Feito que desonra ao autor e ao veículo que o publicou, mas assim são as coisas da vida.
Os americanos fizeram o país mais rico do mundo num curto espaço de tempo sem ficar gemendo ou culpando os outros ou pedindo "Bolsa Família". Em vez de babar de inveja dos Estados Unidos, deveríamos aprender com eles.

O discurso da inveja é uma das muitas falácias de envenenamento da fonte empregadas pela direita para desqualificar as teses e ideais da esquerda. Outra destas estratégias é igualar a fascismo, socialismo ou outro ismo qualquer ação coletiva de resistência a mudanças indesejadas ou de demanda por mudanças. Ainda vou dedicar algum tempo para elencar esses discursos em um todo coerente.

No caso específico do discurso da inveja, a tese direitista é que a demanda por “justiça social” é uma forma disfarçada de revanche contra o sucesso das classes superiores, motivada pela inveja. O que Pondé fez aqui foi transferir essa inveja para uma escala maior, colocando um país inteiro, os Estados Unidos, como alvo de inveja.

Ninguém gosta de invasores.
O discurso da inveja já embute uma dose brutal de pensamento apriorístico e petição de princípio, especialmente por considerar que uma pessoa que esteja em posição social e econômica privilegiada lá está por mérito próprio, ignorando as riquezas e poderes herdados e aqueles obtidos por meios ilícitos (e posteriormente herdados). Ser filho de rico não é mérito, roubar tampouco o é. Mas quando esse discurso é adaptado para uma escala de países a lógica vai às favas porque é necessário fazer grandes simplificações e desconsiderar extensos dados históricos. Sem esse preço não se consegue emitir uma regurgitação tão estúpida quanto o fecho do artigo, reproduzido acima.

Como é inconcebível pensar que Pondé seja um ignorante de História, sua biografia e suas leituras impossibilitam isso, a única explicação possível para esta peça que produziu é a manipulação deliberada, por motivos ideológicos.

Somente no citado parágrafo existem seis ou sete erros bastante evidentes a qualquer pessoa que honestamente analise o assunto sobre o qual Pondé emite tal juízo:
  1. A afirmação de que os americanos fizeram o país mais rico do mundo “em um curto espaço de tempo”.
  2. A afirmação de “os americanos” fizeram.
  3. O anacronismo de misturar o assunto “Bolsa Família”, que evidencia que a frase tem um alvo muito específico.
  4. A ideia de que o sentimento anti americano é motivado pela inveja do sucesso dos Estados Unidos.
  5. A presunção de que seria possível a qualquer país seguir o exemplo dos Estados Unidos.
Primeiramente, o “curto espaço de tempo”. Entre a fundação das colônias norte americanas (início do século XVII) e o momento em que os Estados Unidos se tornaram o país “mais rico do mundo” (1946), tivemos mais de 300 anos. Somente na cabeça de Luiz Filipe Pondé isso pode ser considerado um  “curto espaço de tempo”. É verdade que os Estados Unidos já eram bem ricos e poderosos desde pelo menos o final do século XIX, mas só assumiram ares de potência mundial durante a Segunda Grande Guerra. Antes disso, eram uma potência regional e, mesmo aceitando que estivessem em pé de igualdade com as demais potências mundiais, ainda não eram o país mais rico do mundo.

Esta riqueza que levou o país ao topo do mundo não foi toda ela construída “por americanos”, não se considerarmos “americanos” os descendentes dos colonos originais, ou mesmo aceitando como tal os imigrantes europeus do pós-independência. Boa parte da riqueza foi roubada do México, que cedeu aos Estados Unidos um território maior do que seu território remanescente. E não foram terras de merda, mas regiões ricas em minerais (inclusive o famoso ouro da Califórnia), pastagens e até terras aráveis. Outra parte desta riqueza foi extorquida da Espanha na Guerra Hispano Americana de 1896 (motivada por um ataque de falsa bandeira contra um navio americano em um porto cubano).  Esta guerra abortou a independência filipina (só conquistada em 1946) e portorriquenha (até hoje adiada) e concedeu a Cuba uma independência de fachada, com direito a cláusula constitucional autorizando intervenção ianque (Emenda Platt). Graças aos territórios roubados ao México foi que os EUA chegaram a ter acesso ao Oceano Pacífico. Graças às colônias arrancadas da Espanha, tiveram bases militares no Extremo Oriente (Guam e Filipinas) e controlaram firmemente o Caribe (sem o risco de um território colonial inimigo a poucas dezenas de milhas de Miami).

É importante frisar que se o sentimento antiamericano fosse resultante do sucesso dos Estados Unidos, deveria haver igualmente sentimentos antibritânicos, antigermânicos, antisuecos, antijaponeses, antifranceses e até antiluxemburgueses. Embora nenhum desses países iguale o poderio americano, alguns deles superam a riqueza por habitante dos Estados Unidos. A virtual inexistência de sentimentos correspondentes (ainda que proporcionalmente menos fortes) em relação a outros povos sugere que o antiamericanismo não está relacionado com o sucesso alcançado pelos Estados Unidos, visto que sucessos alheios não despertam sentimentos proporcionais.

Ocorre que os Estados Unidos não se empenharam em fazer amigos ao longo de sua história, muito pelo contrário. São tão numerosos os países que tiveram seus negócios internos perturbados por interferências americanas que não é surpresa que em muitos lugares os ianques sejam mal vindos. Restringindo-nos a intervenções exclusivamente militares, mas incluindo tentativas de rebelião de povos dominados pelos Estados Unidos, temos nada menos que 130 intervenções entre 1890 e 2011. Em nada menos que 130 oportunidades os Estados Unidos mandaram tropas invadir algum país para fazer coisas como impedir a posse de governos eleitos, defender tiranos de revoltas populares, derrubar governos reformistas, impedir reformas progressistas, assegurar os interesses de empresas americanas ou tomar território. Não acho que seja surpreendente que tanta gente odeie os Estados Unidos. É natural um certo receio contra o valentão do bairro, que frequentemente invade a sua casa para interferir na sua vida, quase sempre levando consigo algo de que goste.

Para muita gente, o sentimento antiamericano é equivalente ao sentimento que temos quando vemos alguém dirigindo o carro que nos foi roubado. Você pode preferir chamar isso de inveja, mas eu acho que pensar assim é atribuir culpa à vítima. Por outro lado, espero que Pondé não esteja nos aconselhando a aprender com os Estados Unidos esse tipo de atitude. Mesmo porque nesse jogo de gangues nós seríamos trombadinhas desarmados contra uma tropa de choque usando munição letal.

Porém, mesmo que deixássemos de lado todos os casos em que os Estados Unidos utilizaram sua força militar para pisotear as aspirações nacionais de outros povos (em alguns países houve mais de uma dezena de intervenções), ainda assim seria muito difícil empregar qualquer coisa que aprendêssemos com o caso americano. Primeiro porque ciências sociais não são ciências exatas (sinto-me envergonhado de dizer isso ao Pondé, mas parece que ele não sabe disso, apesar do diploma) e não é certo que a repetição de medidas tenha resultados idênticos. Não apenas porque é impossível repetir de forma idêntica coisas grandes como “medidas políticas”, mas também porque as circunstâncias são incontroláveis. E nem vamos falar dos pontos de partida extremamente divergentes (aquela história dos modelos de colonização de povoamento e colonização de exploração que no meu tempo a gente estudava na quinta série primária e depois repetia no primeiro ano do segundo grau).

Pondo tudo isso no rolo, vemos que o “filósofo” (me recuso doravante a tirar aspas para me referir a ele) desconsidera (porque obviamente não ignora, apenas oculta) informações que são praticamente feijão com arroz de quem estuda ciências sociais, com o fim de culpabilizar os povos prejudicados pelo colonialismo norte americano, ao tempo que elege como modelo de desenvolvimento o país mais predatório que já existiu na face da terra, responsável pelo genocídio dos indígenas em seu próprio território e por massacres incontáveis em países estrangeiros, especialmente na América Latina, onde criou todo tipo de obstáculos ao desenvolvimento nacional autônomo. Todo o ressentimento dos injustiçados é reduzido a inveja. Na visão do “filósofo”, a vítima tem inveja do ladrão.

Não cabe aqui discutir os méritos próprios dos Estados Unidos, que são muitos, assim como os de outros países. Muito menos recair na xenofobia: são raros os esquerdistas que detestam o povo americano propriamente dito, a gente só não quer que eles venham armados dizer quem pode ou não pode nos governar ou nos impedindo de retaliar barbaridades cometidas por seus cidadãos ou empresas. Enquanto eles venham desarmados, apenas como turistas, duvido que alguém vá dizer que tem ódio deles.

Então não rola essa “inveja” do sucesso americano. Os canadenses são também muito ricos (e são até norte americanos), mas ninguém picha “Cannucks go home” nos muros do mundo.