segunda-feira, 4 de março de 2013

O Trote como uma Expressão do Conservadorismo Social Brasileiro

Sempre fui contra o trote, e isso independe de ser trote machista, homofóbico ou o que seja. Minha análise é visceral: o trote é um instrumento de controle da ascensão social das classes oprimidas, originalmente concebido para uso direto das classes opressoras e posteriormente manipulado em seu nome pelos anteriormente aceitos, criando uma “cultura” continuísta deletéria a todos os valores que supostamente são praticados na vida acadêmica. E o trote brasileiro, como costuma acontecer por aqui com quase tudo, tem adquirido gradualmente um aspecto cada vez mais bestial.

Os trotes descendem das cerimônias iniciáticas das antigas religiões. Os gregos, por exemplo, tinham rituais que envolviam embebedar os neófitos e fazê-los participar de orgias (culto de Dioniso) e submeter os homens a provações físicas extremas (Olimpíadas) etc. A submissão dos jovens aos seus “mestres” (efebofilia) era proverbial. Embora não haja registros diretos disto, existem certos indícios de que certos cultos de mistérios incluíam o acasalamento de mulheres com animais (mito de Pasifaé, mito dos sátiros). Outros povos anteriores sempre tiveram seus rituais de iniciação, nem todos tão sistematizados quanto os gregos.

Não farei aqui um histórico detalhado dos ritos de iniciação antigos porque isto vai muito além dos objetivos modestíssimos desse artigo, que é uma breve reelaboração de um comentário deixado no blogue “Escreva, Lola, Escreva” em resposta a um artigo sobre os acontecimentos recentes durante o trote de início de ano na Universidade de São Carlos, no estado de São Paulo. Basta-me pincelar amplamente que existe uma relação de continuidade do trote universitário, criado na Idade Média, com os ritos de passagem dos povos antigos (alguns bastante dolorosos, como a circuncisão, uma espécie de “trote” imposto por certas religiões e costumes tribais).

A Igreja Católica aboliu os antigos cultos e suas práticas apenas gradual e nominalmente. No fundo, foram adaptados em festivais e ritos cristãos, mas continuaram existindo humilhações (como a raspagem do cabelo das noviças e os jejuns) e demonstrações públicas de estoicismo, como o andar sobre as brasas da fogueira de São João. Para os monges e freiras era pior, pois, de certa forma, era como se a vida religiosa fosse um trote para entrar na universidade de Deus.

Os alunos das primeiras universidades criaram suas iniciações para testar se os novos alunos eram “dignos” dos diplomas que ostentariam. Tal dignidade incluía certos valores morais, como a disposição de “fechar” com os valores do grupo (corporativismo). Isso era importante em uma época durante a qual os segredos de certas profissões eram heréticos e sua revelação poderia ensejar grandes perseguições contra seus praticantes (como de fato houve contra os fisiologistas pioneiros, por exemplo). Um dos meios de se evitar que o neófito eventualmente desse com a língua nos dentes era levá-lo a cometer um crime, acobertado pela irmandade. Caso futuramente ele não se mostrasse digno, sua participação seria revelada, destruindo sua reputação e provavelmente custando-lhe a vida. Estuprar camponesas ou cometer sacrilégios eram boas opções. Os maçons incluíam em seus ritos práticas e ícones notoriamente controversos, facilmente interpretáveis como satânicos, justamente para que, no caso de haver uma quebra de sigilo, todos os envolvidos serem inculpados (a Inquisição salvava a alma do arrependido, mas não o seu corpo).

Sobrevivem nos trotes universitários elementos desse trote original que buscava trazer a solidariedade pelo crime. Um bom exemplo é o Dia da Pendura praticado pelos futuros advogados. Em algumas faculdades, os calouros são instados a participar de um lauto jantar em determinado restaurante, sem pagar a conta. As más línguas dizem que é para que o futuro causídico aprenda desde cedo a apoderar-se do alheio… Os advogados que se ofendem com isso certamente não consideram que a maioria das pessoas chamaria isso de roubo. Maioria constituída pela totalidade da população menos os advogados.

O trote não sobrevive apenas no Brasil, mas em outros lugares ele mudou de figura ao longo do tempo, indo numa direção diferente. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aluno entra em uma fraternidade para participar da vida social da universidade. Não ser membro de uma significa ser excluído. Nem todas as fraternidades têm prestígio igual. Algumas são patrocinadas por nomes famosos, ex membros seus. Algumas chegam a ter fama internacional, como a Skull and Bones, da Universidade de Yale, à qual pertenceu George W. Bush, presidente americano. Ao pertencer a uma fraternidade, secreta ou não, o aluno usufrui de sua “proteção” e de sua influência, não só durante o curso, mas em sua carreira posterior. Conseguir entrar para uma boa fraternidade abre portas, mesmo se o seu talento for pouco notável, o que explica que um homem como George W. Bush tenha chegado à presidência americana. Falhar em entrar para uma delas pode ser uma sentença de morte acadêmica: a constante pressão dos demais alunos pode dificultar as mais simples das tarefas quotidianas, prejudicando as horas de estudo, interferindo em experimentos ou até danificando manuscritos. Episódios que podem resultar em reações indisciplinadas, que prejudicam ainda mais o futuro profissional da vítima, manchada por um comportamento inadequado. Em um mundo no qual o sucesso a qualquer preço é exigido dos alunos, que estudam em universidades cada vez mais caras, isto explica que alguns percam a cabeça e usem de violência. Adicione à equação aquela típica facilidade americana para comprar armas e você tem explicação interessante para os tiroteios em escolas e universidades.

Lá como cá, porém, o trote é um instrumento de poder, que reflete estruturas de poder existentes dentro e fora do ambiente acadêmico. Em vez de selecionar neófitos confiáveis para proteger um segredo profissional, o trote hoje seleciona adeptos dispostos a aceitar o enquadramento social que lhes seja imposto, ensaiando assim o papel subalterno que se espera que estes futuros profissionais tenham ao saírem da graduação, pois no Brasil ainda impera mais o poder da grana sobre o poder do conhecimento, e não é incomum que o diplomado vá trabalhar sob as ordens de alguém que não possui graduação. Antigamente o coronel semi analfabeto tinha ao seu serviço o doutor advogado, o contador, o padre, o médico etc. Não era conveniente que esses profissionais tivessem uma atitude arrogante, deviam ser desde cedo treinados a ter a cabeça baixa. E abaixar cabeças é uma das funções do trote que, como a raspagem da cabeça dos recrutas, não tem finalidade prática a não ser a subjugação do ego.

Não é uma cena de filme pornográfico sadomasoquista
Porque os trotes quase sempre envolvem a “submissão” do calouro ao veterano, ensaio da submissão do profissional ao mercado. Para filhos dos milionários, o trote pode ser mais benigno, muitas vezes substituído por “dar festas” — uma espécie nada sutil de exibição do poderio econômico, que já qualifica o “festeiro” como alguém que é do grupo e que, por isso, não precisará ter a cabeça baixa na vida. Em outras épocas e países, os trotes foram usados também em questões nacionalistas. Estudantes galeses, por exemplo, seriam humilhados pilhados conversando em galês dentro das universidades britânicas. E isso foi parte importante na supressão da cultura galesa.

No Brasil, que costuma exarcebar o que outras culturas têm de ruim, o trote virou uma instituição, que choca a sociedade como um todo, em vez de ser só um segredo podre dentro dos portões das universidades. Aliás, nem poderia ser de outra forma, pois a maioria de nossas instituições de ensino mais antigas não goza da privacidade das americanas e nem de sua autonomia política. Então o trote deixa de ser algo que acontece dentro das “casas de fraternidade”, de forma não só tolerada, mas protegida pelo sistema. Deixa de ser uma “festinha” para a qual é fácil fechar os olhos, desde que se tenha o cuidado de não matar, mutilar nem engravidar ninguém, do tipo “se todos amanhecerem inteiros, então não aconteceu nada”. Ao sair para as ruas, o trote esfrega na cara do século XXI como nós ainda somos primitivos, e isso incomoda. Incomoda, mas continua.

O episódio mais recente na história dos trotes bestiais brasileiros aconteceu em São Carlos: incomodados com o protesto de um grupo de feministas contra a degradante submissão a que as calouras eram submetidas, um grupo de veteranos exibiu-lhes os seus genitais, atitude que, comportamentalmente falando, está um passo apenas acima de atirar excrementos. O que se expressa como machismo nesse caso reflete uma estrutura mais profunda de perpetuação de um sistema de “controle” da ascensão social, que envolve não só a opressão horizontal (misoginia e homofobia), mas também a opressão vertical (dita luta de classes).

Exibir os genitais é uma tentativa bizarra e infantil de mostrar “eu tenho e você não tem”, usando o pênis como um símbolo de poder. Alguém associará esse ato com as concepções arquetípicas de Jung, que nos lembram que tais símbolos são fálicos: lanças, espadas, vara, cetros, báculos, batutas, cassetetes. Não é à toa que existem palavras como “varão”. Esses atos, porém, não ocorrem de forma totalmente espontânea: são alimentados pela mídia manipuladora.

Dia desses, em um bate papo informal, dei-me conta de algo estranho, que certamente não é casual: vocês já repararam que desde o início das restrições à publicidade de bebidas alcoólicas a baixa música popular passou a investir no álcool como tema? A música sertaneja, por exemplo, nunca cessou, de 2006 para cá, de ter um sucesso mencionando cachaça. Houve casos mais escrotos que chegaram a mencionar marcas comerciais, como a música que Seu Jorge fez para a cachaça Sagatiba e um recente sucesso de funk-sertanejo mencionando a vodca Absolut. E isto simultaneamente à Lei Seca no trânsito e a grandes campanhas governamentais de combate ao alcoolismo. Será que isso é por acaso? Alguns dirão que letras sobre alcoolismo sempre existiram e sempre existirão, mas será que elas existiam em tal quantidade e apresentando-o de forma sempre tão positiva?

Dito isto a respeito do álcool, que pensar dos temas sexuais na música popular? Qual é o principal tema dos funks, sertanejos e outros? Nada é mais semelhante do que a figura troglodita de um machinho idiota balançando o pinto em cima de um trio elétrico do que as letras desse tipo rasteiro de música. E quem aqui acredita que a música popular é assim porque simplesmente os artistas e o povo “querem assim”? As pessoas aprenderam a querer isso porque é isso que lhes é dado desde a mais tenra idade através do rádio e da televisão e, recentemente, outros meios de comunicação mais novos.

Será que faz sentido pensarmos em lutar contra o machismo e a homofobia sem pensarmos em uma luta mais ampla contra as manipulações midiáticas que ecoam e amplificam esses sentidos primitivos? Acho que o inimigo é maior do que um grupo de alunos de uma universidade, mas é bom usá-los como exemplo, porque da mesma forma como se pode implantar a ideia da banalização do sexo através de uma música comercial manipulada, pode-se implantar a ideia do respeito ao próximo através de ações pontuais, mas consistentes. Está mais do que na hora de socializarmos esses episódios, deixar de vê-los como “problema da calourada”. Só porque já passamos por isso, não temos a obrigação de passar adiante a imbecilidade de que fomos vítimas ou partícipes.

O trote universitário, mesmo o tal “trote solidário”, precisa acabar. E digo que até o solidário precisa porque este nada mais é do que uma dourada pílula com o mesmo significado de rito de passagem imposto. E serve como cortina de fumaça para a perpetuação de relações impositivas que vão muito além das salas de aula.