quarta-feira, 6 de março de 2013

Quinta Coluna em Festa: Morreu o Líder Simbólico da Autonomia Latinoamericana

Desde imediatamente antes da Segunda Guerra Mundial, mas muito mais intensamente depois que o Brasil entrou no conflito contra o Eixo, era costume nossa imprensa chamar de «quinta coluna» o conjunto dos simpatizantes do inimigo que existiam no seio de nossa própria sociedade. Inicialmente o texto tinha um cunho ideológico, e se referia, por exemplo, aos integralistas (cuja ideologia tinha muitos pontos de contato com o fascismo), mas logo adquiriu um teor racista, servindo para atacar os imigrantes alemães, austríacos, italianos e japoneses, bem como seus descendentes. A quinta coluna era temida pela sua capacidade de «atacar de dentro» no caso de início de hostilidades, mas também pelo potencial de incapacitarem o país, seja sabotando suas forças armadas, seja paralisando seu processo político rumo a uma «neutralidade» útil ao inimigo.

A origem do termo não é nobre. Foi cunhado pelo general falangista Emilio Mola, que lutava contra o governo republicano durante a triste Guerra Civil Espanhola. Mola afirmou à imprensa que a marcha de suas quatro colunas de soldados sobre Madrid seria facilitada pela atuação de uma quinta coluna, formada por simpatizantes civis localizados na cidade. De fato Madrid caiu rapidamente, obrigando o governo republicano a refugiar-se em Barcelona na fase final da guerra.


No Brasil o termo passou a ser menos usado após a redemocratização porque durante um longo período de tempo uma outra encarnação da quinta coluna existiu e atuou entre nós de forma contínua, estendendo-se até os dias de hoje: o conjunto dos assalariados e dos simpatizantes da principal potência mundial do século XX. Interessada em limitar a autonomia dos países que reivindicava como sua zona de influência, esta potência patrocinou não dezenas, mas centenas de golpes de estado e regimes de exceção. Entre os países do hemisfério ocidental, somente o Canadá as colônias europeias remanescentes escaparam da sanha golpista dos Estados Unidos.

Alguns regimes patrocinados por Washington foram especialmente odiosos, como a ditadura guatemalteca implantada em 1954 para impedir uma reforma agrária que afetaria o suprimento de banana ao mercado americano e que teve como resultado uma guerra civil com centenas de milhares de mortos e um regime que permitiu a inoculação proposital com sífilis e outras doenças de milhares de crianças, que viveram vidas miseráveis em consequência. Algum dia a História mencionará este episódio com o mesmo horror com que menciona os massacres promovidos pelos conquistadores espanhóis ou, séculos antes, pelos romanos contra os dácios.

Outros regimes amigos dos americanos ficaram famosos por suas demonstrações ostensivas de ódio aos símbolos da cultura e da democracia, como a ditadura chilena, que executou o cantor Víctor Jara como um espetáculo num estádio de futebol, diante de dezenas de milhares de opositores presos que esperavam sua vez, e cujo chefe posou de óculos escuros, uniforme militar e botas de cano alto, com os pés sobre a mesa do escritório da presidência.

Estas interferências sobre a América Latina sempre foram favorecidas pela presença de uma quinta coluna integrada por simpatizantes ingênuos, enganados pelos valores da Revolução Americana, ou elites que se locupletam às custas do povo, em conluio com o grande capital. Isto não é ideologia, é História. E nem é História marxista: a maior parte dela foi escrita por autores americanos. Se você duvida, só lamento sua ignorância. Vá estudar.

Esta história de subjugação de todas os projetos nacionais latino americanos começa ainda no século XIX, quando foi importante a contribuição da diplomacia americana para a dissolução da República Federativa da América Central, inspirada na Argentina (daí as cores azul e branca das bandeiras da maioria dos países resultantes de sua dissolução) e com capital inicialmente na Guatemala, posteriormente em São Salvador. Correu ao longo de mais de 150 anos, perpetuando a dependência econômica e tecnológica destas nações, que já enfrentavam sérios problemas de identidade nacional e pobreza.

 A corrupção natural destes países herdeiros de um tipo perverso de colonização aliou-se aos interesses do poder hegemônico no hemisfério, impedindo que as limitações originais fossem rompidas, mantendo um status quo de exclusão da maioria do povo, sem esperança de melhora. Líderes nacionais legítimos, inspirados no interesse de trazer progresso e liberdade para seus compatriotas, sempre morreram nas mãos de forças militares aliadas aos Estados Unidos, quando não pagas, armadas, treinadas e inspiradas em centros de formação como a Escola das Américas, na Zona do Canal do Panamá.

Alguns destes líderes são particularmente emblemáticos, como os principais líderes da Revolução Mexicana (Francisco Madero, Pancho Villa, Venustiano Carranza e Emiliano Zapata) e Augusto Sandino, porque sua luta sempre foi nacionalista, jamais comunista ou avessa à ordem internacional. Era natural que um homem como Sandino se revoltasse contra a ocupação estrangeira do território de sua pátria da mesma forma como a Resistência francesa contra a invasão nazista ou os irlandeses na Revolta da Páscoa. Mas ele foi morto por uma “Guarda Nacional” a soldo de uma elite vendida aos interesses estrangeiros, e o mandante do crime logo se tornou o “presidente” de mais um regime amigo, a cruel ditadura da família Somoza. E essa foi a tônica da reação ao nacionalismo latino americano: tachado de banditismo por um critério praticamente racista, negador do direito do povo à autodeterminação no quintal da superpotência.

A dificuldade da via popular revolucionária, exceto por fatos isolados, como a Revolução Cubana, abriu espaço para os regimes reformistas, que tentaram implantar de cima para baixo a libertação econômica e social. Um dos primeiros exemplos, em uma época na qual os EUA ainda não projetavam tanto a sua sombra sobre o continente, foi Hipólito Yrigoyen, fundador de um partido que existe até hoje e de uma estabilidade que levou a Argentina a um status de país quase desenvolvido. Posteriormente esta figura, originalmente associada ao caudilhismo platino, se transformou no presidente “populista” encarnado por figuras como Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón, Juscelino Kubitschek, João Goulart, Juan Velasco Alvarado, Omar Torrijos-Herrera e outros.

O populismo era uma tentativa de produzir efeitos positivos para a nação de uma maneira controlada, sem recair em uma revolução aberta, que atrairia a imediata ira americana. Populistas implantavam reformas cautelosas, com o cuidado de não ameaçar frontalmente o status quo. Estas reformas, por sua timidez, não eram suficientes para atiçar uma vingança ianque de seus interesses negados, mas por alcançarem tímidas mudanças no equilíbrio de poder no nível local, criavam forte rejeição nos setores elitistas, a tal quinta coluna sempre a serviço do imperialismo norte americano, que muitas vezes pediram (e muitas vezes obtiveram) o apoio dos EUA para iniciativas locais de mudança de regime. Um dos bons exemplos disso pode ser encontrado na sucessão de eventos que desembocaram no golpe militar brasileiro de 1964.

A Era das Ditaduras Militares — o período da história latino americana entre 1954 e 1990, caracterizado pela simultaneidade de diversos governos liderados por forças armadas conservadoras muito influenciadas por doutrina americana — terminou com a transferência do poder para anêmicos regimes civis, que tiveram de enfrentar a pesada herança deixada pelas ditaduras: o legado da violência institucional e a deterioração econômica como resultado da subjugação do interesse nacional ao que mais tarde se chamou de “Consenso de Washington”, criado na esteira do thatcherismo e das políticas neoconservadoras republicanas implementadas por Ronald Reagan nos EUA. Por causa da “crise da dívida” (causada pelo endividamento irresponsável das ditaduras), esses regimes civis, invariavelmente, tentaram levar às últimas consequências o receituário liberal de abertura de sua economia aos interesses americanos (ou até ao favorecimento do estrangeiro em detrimento do nacional), produzindo desastrosas consequências desestabilizantes. Isto levou a conflitos sangrentos, como o Caracaço de 1989 (revolta dos venezuelanos contra o presidente Carlos Andrés Pérez) ou os distúrbios da Argentina ao longo dos anos 1990, até o governo Kirchner.

O fracasso do neoliberalismo é fruto de seu sucesso: ao conseguir implementar, no todo ou na maior parte, aquilo que era preconizado pelo Departamento de Estado americano e pelos órgãos “multilaterais” (como o FMI, o Banco Mundial e a OEA) onde imperava a vontade dos EUA, esses regimes levaram seus países a becos sem saída, de onde não era mais possível avançar e as elites locais não admitiam nenhum recuo. Esta situação produziu, em alguns lugares, os distúrbios sociais de que a década de 1990 foi pródiga. Isto produziu uma polarização política nunca antes vista, mesmo em países onde nunca estourou uma violência política aberta (caso do Brasil), fenômeno que se desenvolveu em ritmo diferente em cada país.

A instabilidade foi marcante em países como o Equador (que teve mais de uma dezena de presidentes a partir de 1990) e a Argentina (que chegou a decretar uma moratória unilateral da dívida externa), mas não deixou de afetar os países tradicionalmente moderados, como o Brasil (que sofreu com o aumento da pobreza, a ocorrência de apagões e a perda de infraestrutura por desinvestimento após privatizações mal dirigidas durante o governo FHC).

Nesse contexto, a emergência de lideranças populares democráticas (que, diferentemente dos caudilhos e da maioria dos presidentes populistas do passado, derivaram seu poder de eleições livres) representa o maior fato novo na história latino americana desde o início da hegemonia americana sobre o continente, consolidada no final do século XIX. Hugo Chávez foi o pioneiro, ao se erguer sobre a insatisfação difusa do povo contra medidas econômicas duras e ineficazes, tomadas por pressão americana. Seu “populismo” consistiu, basicamente, em ouvir o povo e tentar dar-lhe voz, coisa que os seguros presidentes não populistas tentavam evitar fazer. Na visão direitista, sempre hegemônica na América, do extremo norte ao extremo sul, o povo não sabe o que quer, não deve ser ouvido e o seu benefício, caso sobrevenha, deverá ser apenas o inevitável efeito colateral do crescimento geral do “bolo” da economia (cujas fatias mais largas são concentradas em poucas mãos). Qualquer tentativa de governar para o povo merece um rótulo depreciativo, que, dependendo do reacionarismo da fonte, variará de “populismo a “comunismo, passando por “demagogia” e “socialismo”, incluindo sobrenomes como “irresponsável”, “arcaico”, “irrelevante”, “autoritário”, “ditatorial”, “atrasado” etc.

É difícil imaginar o surgimento de governos populares democráticos, como os de Lula, no Brasil, de Kirchner, na Argentina, de Vázquez, no Uruguai, de Lugo, no Paraguai, de Morales, na Bolívia, de Toledo, no Peru, de Correa, no Equador e até mesmo de Ortega, na Nicarágua e de Zelaya em Honduras, sem ter em mente o sucesso eleitoral de Hugo Chávez (desde que obteve metaforicamente a cabeça de Pérez, através de seu impeachment). Chavez foi a vanguarda, foi quem tateou os caminhos, quem tentou primeiro. Foi o primeiro a dizer “não” aos Estados Unidos e sobreviver ao golpe inevitável, que sempre sobrevém aos tão ousados (sobreveio a Correa, a Morales, a Lugo e a Zelaya, sendo que os últimos dois não conseguiram resistir). Montado na mídia, que manipulou como poucos, demonstrando rara capacidade para entendê-la, construiu uma figura semimitológica e obteve, através de suas reformas cada vez mais inclinadas ao socialismo, um alto grau de aprovação popular. Tudo isso, principalmente o fato de ter servido de modelo e inspiração para vários outros líderes latino americanos, justificaram a ira de sucessivos governos ianques contra si e seu governo.

Foi acusado de todos os adjetivos normalmente empregados pela direita, desde os mais antigos: caudilho, populista, ditador, comunista. Em seus momentos de maior ira, seus inimigos chegaram a atirar-lhe insultos raciais (em alusão ao fato de ser mestiço com sangue indígena e negro) e nunca cessaram de torcer por sua morte (que, no entanto, não tiveram a ousadia de providenciar durante os dois dias em que o tiveram sob seu poder, durante o golpe de 2002). O diagnóstico de câncer foi festejado por todas as elites do continente. Sua sincronicidade com a ocorrência de outros casos, como os de Lula, Kirchner, Lugo e Morales (e também da então ministra Dilma Rousseff) motivaram uma acusação de que talvez o serviço secreto americano estivesse por trás disso, de alguma forma. Acusação improvável, mas não exatamente absurda, tendo em vista casos recentes e comprovados de envenenamento por causas políticas envolvendo o ex presidente ucraniano Viktor Yushenko e o dissidente político russo Aleksandr Litvnenko.

Na sua luta desigual contra o golias do norte, Chávez cometeu equívocos os mais diversos, mas teve dois grandes sucessos: produziu mudanças duradouras no sistema político venezuelano, que não poderão ser revertidas integralmente por nenhum futuro governo, e inspirou casos análogos em diversos países vizinhos. Países que darão sustentáculo ideológico e econômico ao seu sucessor, impedindo que o boicote estadunidense impossibilite a continuidade. Chávez sai da vida para entrar para a História, tal como outros antes dele: a glória do nome dos que se levantam em nome do povo costuma durar mais do que a infâmia dos quinta colunas, que lambem os coturnos da potência estrangeira que os despreza (os presidentes haitianos não podiam frequentar os clubes mantidos em Porto Príncipe pelos embaixadores e militares americanos, pois não eram brancos). Existirá futuramente um “chavismo”, tal como existem o “varguismo”, o “peronismo” e outros ismos oriundos de figuras populistas do passado.

Os que celebram hoje sua morte se esquecem de que as ideias não morrem junto com os homens que as preconizam. Sopram ventos de mudança ao sul do Río Grande, a antiga potência já não consegue controlar tão bem o seu quintal. Os povos latino americanos estão começando a acordar de seu medo ancestral, não temem mais que sua reivindicação de justiça seja respondida por um recrudescimento da injustiça. Reformas foram feitas pela via democrática, legitimando-as perante a comunidade internacional e removendo a desculpa para a intervenção.  Antigas desavenças foram superadas e países antes adversários passaram a cooperar, mesmo que, em alguns casos, houvesse a necessidade de transigir, como o Brasil transigiu perante a Bolívia e a Argentina e como o Equador transigiu perante o Peru. Existe uma oportunidade real de mudança, que pode trazer, em um futuro não muito distante, um maior grau de autonomia, civismo e prosperidade para os que não são brancos o suficiente para nadarem na piscina do colonialismo light que impera desde o fim da II Guerra.

Quando isso acontecer, a memória de Chávez terá a estatura de um Bolívar. Não custa lembrar que o homem que inventou a liberdade da América crioula também foi traído por quinta colunas. Morreu no exílio uma morte celebrada pelos que detestavam a liberdade. Mas seu nome paira como uma sombra acima da América do Sul, como um ideal que não morre. Agora que Chávez morreu, ele se tornou imortal: ninguém jamais matará o mito.