domingo, 28 de abril de 2013

A Classe Média Aprendeu a Matar

O recente latrocínio cometido com requintes de crueldade contra uma dentista em São Paulo, com a vítima sendo queimada viva porque tinha somente R$ 30,00 em sua conta bancária, vem suscitando muito questionamento sobre os motivos do crime. Existe uma corrente sociológica, muito significativa no lado esquerdo do espectro político, segundo a qual o crime é uma reação dos excluídos a uma situação opressiva de miséria. Enquanto isso, no lado direito, a violência é vista como uma falha de caráter, um pecado cometido em plena consciência, por alguém dotado de pleno livre arbítrio. A solução proposta pelos primeiros é intensificar a redistribuição de renda, a dos segundos é prender e punir (coisas diferentes no jargão direitista, que vê a cadeia como uma espécie de colônia de férias).

Acredito que ambos os lados estão errados, embora não completamente. A verdade, como sempre, é complexa, fica no meio. Não é correto dizer que a causa da violência é exclusivamente a miséria econômica, ou teríamos mais crimes em países mais pobres (como a Índia e a Bolívia) e não é correto dizer que o criminoso faz uso de seu livre arbítrio, ignorando os condicionamentos a que somos submetidos.

Bem, eu li em algum lugar, talvez dentro de minha própria mente falha e pervertida, que a verdadeira causa do crime é a eterna insatisfação do ser humano, resultante de sua desconexão com os valores da família/tribo/coletividade/etc. em uma situação de injustiça.


Funcionaria assim: vivemos em uma sociedade que nos julga pelo que temos, não pelo que somos, e ao mesmo tempo não nos oferece oportunidades iguais de adquirirmos aquilo que a sociedade valoriza. Então, sabemos que “ficaremos doces” se tivermos um Camaro amarelo, mas esse só está acessível a uns poucos. Aos demais sobra o ressentimento de, por exemplo, ver as garotas bonitas dando para caras ricos (ou filhinhos de papai rico) enquanto eles chupam o dedo. Mas a falta de acesso ao Camaro amarelo não é, ao contrário dos estúpidos libertários acham, resultado da discrepância do esforço individual.

Em primeiro lugar, porque a construção de uma fortuna costuma ser um processo que dura gerações: os Rotschild, por exemplo, não se tornaram o que se tornaram em cinco ou dez anos de “trabalho duro”. Essa acumulação rápida só acontece quando alguém tem muita sorte de estar no lugar certo e na hora certa (o que é necessariamente raro). Se a acumulação é um processo que dura gerações, a “culpa” dos pobres por sua miséria acaba sendo uma espécie de “carma” e o discurso moral do esforço pessoal se desfaz no ar.

Em segundo lugar, porque, ainda que originalmente todos estivessem no mesmo nível social e possuidores das mesmas oportunidades, as discrepâncias surgidas ao longo das gerações colocariam em diferentes patamares de oportunidade os descendentes das gerações anteriores. E então, essas diferenças pré-existentes criariam uma situação injusta que permitiria que idiotas preguiçosos nascidos em famílias ricas gozassem de um padrão de vida muito superior ao de espertos trabalhadores nascidos em famílias pobres, simplesmente porque o pai do primeiro fora esperto e o do segundo, não.

Esse caráter cármico da miséria é o que torna o discurso libertário do esforço individual uma crença irracional, essencialmente irracional, a ponto de ser religiosa fundamentalista (fundamentalista em relação à crença na perfeição do “mercado”, esta entidade abstrata que é mais importante que pessoas, na visão libertária).

Porém, em um mundo reverso, no qual as pessoas fossem julgadas pelo que são, e não pelo que têm, ainda existiria injustiça equivalente. Porque pessoas trabalhadoras e competentes, que se esforçaram para ganhar muito dinheiro, ainda seriam vistas de forma inferior a outras que tivessem talentos, beleza, ou outras coisas que não podem exatamente ser ganhadas. E esta desigualdade inerente seria ainda pior do que a existente em nossa sociedade do “ter em vez de ser” porque aquilo que somos é algo muitas vezes inato, ou fruto de processos longos, sobre os quais não temos nenhum controle. Como explicar para um garoto que ele é tido como socialmente inferior por ser menos bonito ou menos inteligente? Na minha opinião, não há diferença entre essa explicação e alguma outra, segundo a qual a inferioridade resultaria da etnia ou  da orientação sexual. Ambos os extremos são errados. Nem o ter e nem o ser deveriam determinar parâmetros para a injustiça. Como diziam os romanos, a virtude está no meio.

Há que se dizer, também, que a carência é algo relativo: alguns carecem de pão, outros de colares de diamantes. Alguns se sentem o máximo por comerem num restaurante junto com a classe média, outros invejam o Rolls-Royce do vizinho mesmo tendo um Camaro amarelo na própria garagem. A insatisfação não é racional. Por isso o crime não está restrito aos pobres, que “invejam” aos ricos e por isso votam em candidatos “comunistas” que os expropriarão (outra boçalidade libertária), mas se propaga por toda a sociedade, mudando apenas o tipo de crime. Certamente uma pessoa inculta tenderá a compensar suas carências de forma violenta, cometendo um latrocínio, enquanto outra mais culta as compensará de forma não violenta, cometendo uma fraude. Mas a imprensa só enxerga sangue, não enxerga sangrias contábeis. Por isso hediondo é o estupro da patricinha pelo menino do morro, mas o desvio por um político ou empresário de milhões de reais que seriam destinados à habitação popular é tratado como um pecadilho.

Existe um problema, também, com os sistemas de correção desta injustiça, quando eles absolutizam um lado. Como a injustiça é inerente a qualquer sistema fundamentalista (de mercado ou de valores) e o equilíbrio do "meio" é difícil, o resultante é que todas as sociedades serão injustas em certa medida, e o que manterá a paz da sociedade será uma ideologia que ensine as pessoas a se conformarem com as diferenças. Para que isso funcione é preciso que as diferenças não sejam grandes demais (para que as pessoas consigam desconsiderá-las como exceções ou mesmo nem enxergá-las) e que as ideologias sejam razoavelmente igualitárias (seja no lado social democrata, seja no lado cristão ou budista ou sei lá o que). É preciso também que exista uma forma de controle da própria sociedade sobre si, através das instituições espontâneas, como a família, os amigos, os clubes, os grupos etc. Instituições que dependem de um nível de interrelacionamento entre as pessoas que parece impossível no mundo superpopuloso e egoísta em que vivemos.

Então, a causa da violência é complexa, mas evidente. Temos pessoas frustradas por suas carências (absolutas ou relativas), vivendo em um mundo no qual não têm de prestar contas a ninguém e, por isso, acham que podem fazer tudo impunemente. Isso é explosivo porque elas tentarão suprir suas carências, materiais ou afetivas, rompendo as regras do convívio social. Isso funciona em todas as sociedades, variando apenas a frequência. O garoto que estupra a patricinha está, muitas vezes, se rebelando contra  a falta de oportunidades reprodutivas que a sociedade lhe oferece: evolutivamente falando, é melhor engravidá-la hoje do que trabalhar uma vida para, talvez, tentar fazer isso depois de velho. O instintos humanos não conhecem o conceito de futuro.

Se quisermos reduzir a violência, precisamos reduzir a pressão sobre o indivíduo, mantida pela desigualdade (mesmo que uma desigualdade fútil entre marcas de carro), aumentar a coesão social e diminuir a sensação de liberdade individual que existe nas grandes metrópoles. Precisamos de uma ideologia que pregue a harmonia e a solidariedade entre os indivíduos, e não o direito dos vencedores a obterem supremacia sobre os vencidos. Precisamos diminuir a escala das instâncias de poder, fazendo a sociedade funcionar a partir da base, e não a partir de cima. Eleger os líderes comunitários antes de elegermos o prefeito. Substituir a partidarização em larga escala, que reduz as ideologias a marcas de sabão, pela organização das pessoas em seus locais de trabalho, em suas ruas, em suas famílias, em suas escolas. Dirão que proponho uma “sovietização”. Não tenho medo da palavra. A ideia essencial era boa, não se pode culpar uma ideia por ter sido mal interpretada ou mal implementada.