segunda-feira, 8 de abril de 2013

Corra, Kim, que a Polícia do Mundo Vem Aí.

Potências imperiais gostam de brincar de polícia com o mundo. Claro, no papel da polícia e chamando de ladrão quem esteja no seu caminho. Pode ser um regime realmente maligno, como a Alemanha nazista, ou um governo bem intencionado e absolutamente inofensivo, como a Nicarágua sandinista. Pode ser um regime realmente adversário, como a URSS, ou um simplesmente um amigo que tinha o defeito de se preocupar com o próprio povo, como a Guatemala de Árbenz.

No fundo a política internacional é um jogo sujo, baseado na mais abjeta e escrota hipocrisia. Para as potências hegemônicas, principalmente, princípios não existem, apenas conveniências. Pelo pretexto de combater uma “ditadura” comunista, os EUA apoiaram durante mais de uma década a ditadura comunista e genocida do Khmer Vermelho contra o governo de reconstrução nacional criado pela intervenção vietnamita. Diz que se importa com a democracia na América, mas patrocinou, a partir do final do século XIX, as ditaduras mais cruéis e caricatas da história de cada um dos países ao sul do Río Grande. Rejeita a legitimidade das eleições venezuelanas, atestada por observadores internacionais, mas teve um presidente eleito em um pleito marcado pela fraude e pela obscuridade e há menos de um ano abençoou um pleito mexicano com sinais evidentes de trapaça. E enquanto tenta erradicar o extremismo religioso talibã no Afeganistão, mantém a Arábia Saudita como “nação mais favorecida” de seu comércio, justamente o país de onde emana a maior parte do fundamentalismo islâmico de hoje.

Infelizmente, as pessoas se esquecem muito fácil desse passado de crimes dos Estados Unidos contra a soberania de outros países, esquecem das mentiras que inventaram para justificar intervenções nas quais o único interesse a se preservar era o de Wall Street. Agora a máquina de propaganda ianque está a todo vapor tentando criar um pretexto para aniquilar a deprimente Coreia do Norte, último reduto comunista tr00 deste planeta. E uma quantidade enorme de macacas de auditório senta e levanta ao ritmo ditado pela imprensa, aplaudindo e apupando conforme quem aparece tenha olhos amendoados ou não.


Para começo de conversa, vamos deixar estabelecido que este post não tem por objetivo nenhum tipo de solidariedade com a tosca Coreia do Norte, lugar aonde não quero ir morar (principalmente “morar”) nem no pior de meus pesadelos.1 E certamente se eu tivesse que escolher entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos para serem meus senhores, eu certamente preferiria os segundos. O objetivo deste post é demonstrar o funcionamento dos mecanismos que estão em ação neste episódio, e lembrar, através de paródia, um momento da história:
Primeiro foram atrás do Iraque,
e eu não disse nada porque não sou iraquiano.
Depois foram atrás do Afeganistão,
e eu não disse nada porque não sou afegão.
Então foram atrás de Honduras,
e eu não disse nada porque não sou hondurenho.
Então foram atrás da Tunísia,
e eu não disse nada porque não sou tunisino.
Então foram atrás da Líbia,
e eu não disse nada porque não sou líbio.
Estão indo atrás da Coreia do Norte,
e eu nada digo porque não sou norte-coreano.
Um dia virão atrás de nós,
e não haverá ninguém para dizer coisa alguma.
Existe um princípio na dinâmica da política internacional que diz que o inimigo é sempre bárbaro. Desumanizar o adversário faz parte do jogo. Isso se faz com palavras e com imagens, mas com palavras é melhor, porque elas atuam de forma mais subreptícia. Lembra do tempo em que se dizia que comunista comia criancinha?2

Houve uma época em que os britânicos chamavam os alemães de “hunos”, diziam que os cientistas do Kaiser tinham inventado uma arma terrível que envenenava os soldados à distância e que, se as potências centrais ganhassem a Grande Guerra, toda a Europa seria anexada ao Império Alemão.

Os hunos originais foram um povo de raça turca (ou mongólica, ou mestiça, ou negra, ou sabe-se lá o que) que atacaram a Europa Oriental no fim da Antiguidade. Os romanos os descreviam como comedores de carne crua, praticantes da automutilação, imundos, canibais etc. Quatrocentos anos antes as legiões romanas conquistaram a Gália e denunciaram a prática de sacrifícios humanos pelos druidas. Sacrifícios tão cruéis e desumanos que os pobres gauleses foram submetidos a um verdadeiro genocídio, alimentando por séculos os “circos” romanos, onde se sacrificava gente não a deuses, mas ao divertimento. Era obsceno que os gauleses sacrificassem virgens nos seus feriados. Era civilizado que os romanos sacrificassem todo tipo de gente a cada domingo.

Assim se repete a história desde sempre,  e sempre há um bárbaro novo cuja conquista se tem que justificar. Tal como Trajano pintou os dácios como monstros para poder roubar seu ouro, o império americano pinta os árabes como monstros para poder roubar seu petróleo. Certamente havia monstros entre os dácios e certamente os há entre os árabes. Mas maior foi a monstruosidade do genocídio romano, como maior é a monstruosidade dos genocídios em curso atualmente, no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e no Paquistão.

Quando o inimigo é fraco, às vezes nem precisa inventar muita coisa, pois a ação já terá sido concluída antes que a opinião pública tenha tempo de assimilá-la. Assim foi na Guatemala, na República Dominicana, em Granada… Mas o inimigo pode prolongar a ação, então é preciso preparar terreno. E aí é preciso inventar que ele tem “armas de destruição em massa”, “que ele é uma ameaça à paz internacional” ou que faz parte de um “eixo do mal”.

A Coreia do Norte é a bola da vez — o que significa que as baterias midiáticas ianques, tanto as próprias quanto as terceirizadas, atirarão à vontade contra o regime que se quer derrubar. Foi para vingar o 11 de Setembro e acabar com as “armas de destruição em massa” que se atacou um Iraque já exangue por mais de uma década de fortes sanções econômicas. Foi para acabar com o “terrorismo de estado” sudanês que se bombardeou o principal complexo industrial do país e se impôs um bloqueio econômico que levou o país ao caos econômico e à guerra civil. Foi para “Caçar Osama bin Laden” que se invadiu o Afeganistão e se matou mais gente que o talibã havia matado antes. Mas no fim das contas Saddam não tinha nenhuma das tais armas, a fábrica bombardeada era uma indústria farmacêutica que produzia principalmente remédios contra doenças tropicais, e Osama bin Laden estava escondido no Paquistão, país “amigo” dos Estados Unidos.

A única coisa que todos esses regimes tinham em comum era que, por serem detestáveis violadores de direitos humanos, ninguém se levantou para denunciar a violação de sua soberania. Tal como no “poema” de Martin Niemöller. Mas um dia talvez venham atrás de nós, e o resto do mundo nos verá como detestáveis também, violadores de direitos, cortadores de árvores, estupradores de turistas, possuidores de armas de destruição em massa, ou seja o que for. E ninguém falará contra nós.

[continua] — na parte 2: Por que atacar a Coreia do Norte?


1 A palavra “morar” significava originalmente trabalhar e residir em um mesmo lugar. Aplicava-se a colonos e escravos.
2 Não se sabe se alguma vez alguém comeu criancinha por ser comunista, mas é sabido que houve algumas fomes terríveis em países comunistas como União Soviética (nos anos 1930), na China (nos anos 1950), no Camboja (anos 1970) e na Etiópia (anos 1980). Não que tenham deixado de haver fome em lugares sob influência capitalista, mas fatos são fatos.