sexta-feira, 5 de abril de 2013

Já que Castro Alves não Está Vivo para Defender-se

Recente artigo de autoria da “psicóloga cristã” Marisa Lobo publicado no portal GospelMais procurou diminuir o peso das bobagens ditas a respeito da África pelo pastor e dublê de deputado Marco Feliciano. Já que as declarações do indivíduo são indefensáveis perante o bom senso (embora não perante a justiça que, neste país, tem apenas uma relação remota com tal conceito), é de se esperar que a autora tente encontrar autoridades para referendá-las. De preferência autoridades mortas, que não reclamarão de serem alistadas como guarda costas das ideias tramontanas do tartaruga.1

Buscar autoridades para apoiar algo que é uma bobagem óbvia não diminui o tamanho do erro do que foi dito, ainda mais quando, para justificar uma peruada dita a respeito de um tema científico (no caso também teológico) você evoca uma autoridade literária. Mas fica ainda mais injusto quando um pobre poeta do século XIX é sequestrado pelo discurso de intolerância, e justamente um poeta que dedicou sua vida a combater justamente o obscurantismo e o racismo! Que buscassem algum outro poeta eu não me importaria, pois houve vários outros, filhos de seu tempo, que não conseguiram elevar-se acima da turba. Mas Castro Alves!

Como pode a criatura evocar para a defesa de alguém que dá declarações racistas justamente os versos do poeta baiano, maior (talvez único grande) de nossos abolicionistas e autor de uma obra imortal justamente porque isenta dos preconceitos comuns ao século em que viveu? Um homem bem informado, à frente de seu tempo, que afrontou com sua vida e seu verso uma sociedade cruel, racista e conservadora, em nome de seus ideias e de seus amores.

Pode parecer inacreditável, mas a autora da peça de excremento linkada acima, tenta defender o discurso racista  do deputado argumentando que as mesmas coisas que Feliciano declarou, em momentos de verborreia desatada pelo deslumbramento dos holofotes, usando, principalmente, Castro Alves:
A literatura negra, e poemas como Vozes D’África, do Livro “Navio Negreiro” do poeta abolicionista Castro Alves (1896) provam que Marco Feliciano não é racista, apenas um afrodescendente que como outros poetas, descreveu sua história.
Uma tal declaração revela um grau tão profundo de ignorância generalizada sobre coisas que a pessoa obviamente deve ter estudado, que a única explicação possível é a da dissonância cognitiva: de fato Marisa sabe muito bem do que está falando, mas por razões afetivas e religiosas ela desenvolve teorias estapafúrdias para manter sob controle a constatação do absurdo. Em primeiro lugar, é uma bobagem (para ser educado) evocar uma obra literária, ainda mais um poema lírico, como autoridade em História. Mesmo que houvesse algum valor de conteúdo nessa obra, tal valor estaria condicionado a uma série de fatores interpretativos, os mesmos que nos dizem que nenhum documento é por si bastante para explicar um fato.

O erro metodológico cometido pela afirmativa acima citada é chamado de “abordagem reducionista” e já foi devidamente exorcizado pelos historiadores há mais de oitenta anos, exorcismo que começou com o marxismo e se completou (com louvor) com o desenvolvimento da “História das Mentalidades”. Segundo a abordagem positivista (que já era rejeitada no século XVIII por nomes como Edward Gibbon) os documentos contêm informações sobre fatos, e nenhum conhecimento que não seja documentado pode ser considerado como fato. Disso resulta um peso excessivo ao que está escrito, levando, nos casos de demência intelectual mais agudos, a conclusões reducionistas, como a de que os autores de documentos são sinceros até prova em contrário. Os historiadores mais racionais, desde bem antes de Marx, já tinham por princípio que os documentos devem ser confrontados. Uma consequência do destronamento da abordagem reducionista foi o início dos estudos históricos sobre os povos iletrados e a bem aventurada superação do uso da invenção da escrita como “marco inicial” da História.

Mas Marisa vai mais longe, ao afirmar que:
Citar a história da civilização humana em nenhum momento poderia ser motivo para atribuir a uma pessoa o rótulo de racista para disfarçar outros interesses sórdidos.
Obviamente Marisa considera a Bíblia um relato histórico inquestionável e que, portanto, qualquer coisa ali escrita é parte da história da civilização humana. Somente sob o prisma de um tratamento especial do texto bíblico esta afirmativa é aceitável pois, sem tal condicionante, nenhum documento, por mais alheio à realidade que seja, pode ser questionado em seu valor verdade, nem mesmo “Os Protocolos dos Sábios de Sião” (comprovadamente falsificado, inclusive com as confissões dos autores e com a “árvore genealógica” dos textos e ideias) ou “O Livro de Mórmom”.

Faço esta afirmativa para deixar bem claro a falácia em que Marisa incorre, ao considerar que um texto de sua preferência contém a verdade, enquanto outros textos discordantes não a contêm. As teses levantadas pela autora só fazem sentido se admitirmos previamente que a Bíblia tem tal valor. Mas isto é uma falácia formal (petitio principii), uma vez que o valor de uma afirmativa não pode ser condicionado pela prévia aceitação de outra afirmativa não provada.

Mas o mais engraçado dos efeitos colaterais do argumento é que a legitimação de Castro Alves como fonte histórica traz de contrabando vários fatores altamente problemáticos para o argumento de Marisa Lobo em defesa de Feliciano. Em primeiro lugar, o poeta baiano era, tal como seu ídolo Lord Byron, um ateu declarado — que só não se esforçava mais para exibir sua falta de fé porque a sociedade da época não permitia. Castro Alves viveu maritalmente com uma atriz de teatro (profissão que tinha, na época, um status equivalente ao de meretriz) mais velha e divorciada, um acinte para a sociedade de seu tempo, quase equivalente ao que o comportamento homossexual é para a sociedade de hoje. Além disso, em mais de um momento, usou seus versos para propor a abolição das religiões.

Mas o mais curioso é que, pelas teses aventadas pela psicóloga e dublê de crítica literária, Castro Alves deveria corroborar a origem bíblica da maldição africana, mas não é isso que ele faz. Ou Marisa nunca leu Castro Alves (provável, visto que a leitura das obras do poeta baiano é altamente salutar para o intelecto e o bom gosto) ou leu e não conseguiu enxergar, logo na segunda estrofe (para que não diga como desculpa que é um trechinho perdido lá no meio), que o poeta vincula a suposta maldição da África à mitologia grega:

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé!…
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé…

Não creio que Marisa Lobo seja devota dos deuses olímpicos. Mas, mesmo sem ser, ela deveria ter percebido, em uma leitura mais apressada, que Castro Alves, longe de aludir a uma maldição vergonhosa que pesa sobre a África, está, de fato, sugerindo que o continente sofre uma vingança ignominiosa da divindade por algo que fez de bom ao mundo.

Como sabem os que estudaram mitologia, Prometeu roubou dos deuses o fogo sagrado e ensinou aos homens o seu segredo. De posse do fogo os homens deixaram de ser animais indefesos perante a natureza (governada pelos deuses). Por causa disso, Zeus acorrentou Prometeu nas montanhas do Cáucaso e enviava toda semana a sua águia de estimação para devorar o fígado do herói. Desta forma, o benfeitor original da humanidade sofreu por milhares de anos (até ser libertado por Héracles) injustamente.

Neste magnífico trecho, o poeta baiano compara a África injuriada à figura de Prometeu. Elogio maior não pode haver ao mais injustiçado dos continentes: aqui está implícito o reconhecimento do papel da África na História, não apenas como berço da humanidade, mas também de uma das mais antigas e importantes civilizações. Se o sofrimento dessa África prometeica é uma maldição divina, a divindade responsável é um ser de infinita escrotidão, e não de infinita bondade. E claramente esse deus inicialmente não é Jeová, mas Zeus.

Em outro trecho o poema finalmente alude à maldição de Cã, de uma forma porém incompatível com  a narrativa bíblica. Pois, na sequência dos fatos narrados pelo poema, somente depois que a África acolheu Cã foi que “a Ciência desertou do Egito”. Não faria sentido, se Deus queria amaldiçoar a África, primeiro permitir que Egito florescesse para depois destruí-lo.

Combinadas, as duas citações se anulam em termos de autoridade, pois fica evidente que são usadas meramente como ilustração mitológica, como figura de retórica para dar carne às ideias do poeta. 

Mais à frente Castro Alves fulmina o cristianismo de uma forma tão inapelável que eu não entendo como Marisa Lobo ousa citar Vozes d'África para legitimar suas agressões verbais contra os povos africanos:

Cristo! Embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal…

É isso mesmo que você está lendo, caro leitor, o poeta, em uma estrofe só, afirma que a morte de Cristo foi em vão e que o seu sangue não lavou da fronte africana a mancha de seu suposto pecado. Esta afirmação é extremamente contundente, para os fins da argumentação da autora desse texto, porque havia diversos reinos cristianizados na África e eles não foram poupados do tráfico negreiro. Notadamente o Reino do Congo e a Abissínia. Se a razão das mazelas africanas estivesse em uma maldição “lavável” no sangue de Cristo, a Etiópia e a Eritreia, herdeiras da antiga Abissínia, deveriam ser países bem superiores em “bem aventurança” se comparados aos seus paupérrimos vizinhos. Na verdade, muito pelo contrário, os países menos miseráveis do continente são os de religião islâmica. Talvez Maomé tenha sido melhor nesse negócio de lavar maldições mitológicas…

A verdade é que o poeta, como legítimo ateu, não recorre à narrativa bíblica senão como uma cor mitológica para aumentar a expressividade de seu texto. E faz questão de deixar isso bem claro quando faz sua alusão a Cã ser precedida de outra alusão ao mito de Prometeu: são só dois mitos utilizados com finalidade alegórica, retórica, poética. Ver neles mais do que isso é simplesmente ignorância do que seja literatura (e nem vou falar de outras demonstrações de ignorância despejadas pela dita cuja).

Mas foi importante eu ter começado essa dissertação sobre a argumentação de Marisa Lobo porque me deu a oportunidade de encontrar, na leitura dOs Escravos diversos outros trechos que talvez a autora devesse ter lido, para construir sua tese de que o poeta baiano corrobora as lendas bíblicas. Porém, muito mais do que isso, os valores almejados pelo poeta, com os quais certamente concordo. Valores expressos em algumas das últimas estrofes do poema O Século, que começa com uma longa e desanimadora análise da política internacional da época e termina convocando os povos a um programa que em nada se assemelha com o reacionarismo obscurantista de certos setores da direita religiosa:

E vós, arcas do futuro,
Crisálidas do porvir,
Quando vosso braço ousado
Legislações construir,
Levantai um templo novo,
Porém não que esmague o povo,
Mas lhe seja o pedestal.
Que ao menino dê-se a escola,
Ao veterano — uma esmola...
A todos — luz e fanal!

Luz!... sim; que a criança é uma ave,
Cujo porvir tendes vós;
No sol — é uma águia arrojada,
Na sombra — um mocho feroz.
Libertai tribunas, prelos...
São fracos, mesquinhos elos...
Não calqueis o povo-rei!
Que este mar d'almas e peitos,
Com as vagas de seus direitos,
Virá partir-vos a lei.

Quebre-se o cetro do Papa,
Faça-se dele — uma cruz!
A púrpura sirva ao povo
Pra cobrir os ombros nus,
Que aos gritos do Niagara
— Sem escravos, — Guanabara
Se eleve ao fulgor dos sóis!
Banhem-se em luz os prostíbulos,
E das lascas dos patíbulos
Erga-se a estátua aos heróis!

Além de ateu, nestes versos o poeta se mostra exatamente um comunista, ou seja, o tipo de gente mais indicado para uma religiosa fundamentalista ter como ídolo! Observem que o poeta prevê o fim da religião: Levantai um templo novo, / Porém não que esmague o povo, / Mas lhe seja o pedestal. Este templo não é um templo religioso (observe a curiosa conjunção adversativa “porém” sugerindo que os templos a que o leitor estava acostumado eram do tipo que, sim, esmagava o povo). Em lugar dela, o homem deveria cultuar a si mesmo e às suas realizações (pois os novos templos seriam pedestais do povo). O programa político de Castro Alves incluía educação para todos (Que ao menino dê-se a escola), um sistema público de previdência social (Ao veterano — uma esmola) e até mesmo um programa de renda mínima (A todos — luz e fanal!). Este último aspecto ecoa de modo curioso a máxima marxista (“de todos segundo sua capacidade, a todos segundo sua necessidade”).

Nestes versos o poeta também defende as liberdades de expressão e de imprensa (Libertai tribunas, prelos), afirma que todo o poder emana do povo (povo-rei) e profetiza a Revolução contra os governos que não se submeterem a tal reinado (Que este mar d'almas e peitos, / Com as vagas de seus direitos, / Virá partir-vos a lei.) Não apenas o poeta propõe a derrubada do poder temporal dos reis, ele vai além e propõe a abolição do poder político da igreja:  
Quebre-se o cetro do Papa. Esse poema é do tipo que faria os bolcheviques salivarem. Uma tradução em russo teria se tornado muito popular na União Soviética.

Em suma, se considerarmos a obra e a vida do poeta baiano, nada está mais distante do fundamentalismo racista que Marisa Lobo defende, nada é mais avesso ao reacionarismo do tipo de religião cristã a que ela adere.

1 Diz um antigo ditado que quando vemos uma tartaruga no alto de um poste podemos ter várias dúvidas: como vai descer, como se equilibra lá, quanto tempo vai permanecer ali, se vai sobreviver à queda etc. Mas podemos ter uma certeza: ela não subiu até lá sozinha, mas foi posta lá.